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terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Arte: Antonietta Varallo


NESTE DIA DE MAR E NEVOEIRO
Sophia de Mello Breyner Andresen



Neste dia de mar e nevoeiro
É tão próximo o teu rosto

São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses

Aquelas aves que tinham
uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse

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© SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
In Coral, 1950

Mais da autora: Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 12 de abril de 2011

FELICIDADE
Sophia de Mello Breyner Andresen


Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia - por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta

13-1

In Poesia 1 - I – 1944
Imagem: Pintura de Michael and Inessa Garmash

quarta-feira, 6 de abril de 2011

image

UM DIA
Sophia de Mello Breyner Andresen


Um dia, mortos, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

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In Dia do Mar
Imagem de diversas fontes da Internet, via Google

sábado, 2 de abril de 2011
Claude_Theberge_the_invitation 

PESO DE NUVENS
Sophia de Mello Breyner Andresen


Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.

0-3

Mais de Sophia de Mello Breyner Andresen
Imagem: Pintura de Claude Theberge (the invitation)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

maryluz
                                 Foto de MaryLuz in olhares.com

 

BEBIDO O LUAR
Sophia de Mello Breyner Andresen

Bebido o luar, ébrios de horizontes,
Julgamos que viver era abraçar
O rumor dos pinhais, o azul dos montes
E todos os jardins verdes do mar.

Mas solitários somos e passamos,
Não são nossos os frutos nem as flores,
O céu e o mar apagam-se exteriores
E tornam-se os fantasmas que sonhamos.

Por que jardins que nós não colheremos,
Límpidos nas auroras a nascer,
Por que o céu e o mar se não seremos
Nunca os deuses capazes de os viver.

sábado, 30 de maio de 2009

dance
                                            imagem da internet


TUDO
Sophia de Mello Breyner Andresen


Tudo me é uma dança em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio dum sonhar obscuro
Onde invento o real.

À minha volta sinto naufragar
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos,
Sobe os degraus do ar...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

frag_sophia_andresen_1

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Three_Women
                                         imagem de Charles Courtney Curran


O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê
O poema alguém o dirá
Às searas
Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento
O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento
No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)
Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas
E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo.


[O Poema - Sophia de Mello Breyner Andresen]

sábado, 8 de novembro de 2008

Perrault_Leon_Jean_Basile_Son_favori
                                  imagem: Bazile Perrault


Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

[Um Dia - Sophia de Mello Breyner Andresen]

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

doiscorposimagem da internet


Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

terça-feira, 9 de setembro de 2008

monet_water_lilies
                                             Imagem: Monet


Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!


[Pudesse eu - Sophia de Mello Breyner Andresen]

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

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                      imagem: Elizabeth Snow

Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.

[Às Vezes - Sophia de Mello Breyner Andresen]

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

amantes_1 
                                                       imagem: da internet

Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.

Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.

[O primeiro homem - Sophia de Mello Breyner Andresen]

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