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sábado, 27 de abril de 2019

PARA UMA MENINA COM UMA FLOR
Vinícius de Moraes

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, que aliás você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você quando sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre num nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, como uma santa moderna, e anda lento, a fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der aquela paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta mas não concorda porque é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara- na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as outras mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse, cantando sem voz aquele pedaço em que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nestas montanhas recortadas pela mão presciente de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

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© Vinícius de Moraes
In: Para uma menina com uma flor, 1966
Arte: Vladimir Volegov
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segunda-feira, 14 de agosto de 2017






















A VIDA É COLORIVEL
Marilina Baccarat de Almeida Leão



Há quem diga que sonha em preto e branco, outros, que sonham colorido. Sonhar colorido é muito mais interessante, pois tudo fica mais bonito. Os sonhos estão aí para definir a vida em cores. Os otimistas e sonhadores sempre vão dizer que a vida é colorível, mesmo que os sonhos sejam brancos e pretos.

A forma, pela qual todos veem a vida, não muda nada, o importante é que todos possam tornar a vida colorivel, porque o que sonham, seja preto e branco ou colorido, não importa. O que realmente é importante são os acertos, para que a vida se torne colorida.

Temos que viver colorindo a vida do nosso jeito, isto é, fazer com que a vida seja colorível. Assim seremos mais felizes.

A vida é muito mais que a exatidão de um preto e branco. Vai muito além da importância de torná-la colorida. Ela é uma dádiva e, viver plenamente, é um presente irrecusável, assim como é colorir um desenho.

Muitos diriam que, definir a vida em cores, para eles, ela seria preta e branca. Essas pessoas são muito calculistas, não se interessam muito em colorir a vida. Os pessimistas diriam que a vida é cinza, não haveria graça em tentar colori-la. Mas os otimistas e sonhadores diriam que a vida é para se colorir, então ela é colorível.

Podemos seguir nosso caminho, logo, podemos deixar, junto a estes caminhos, uma vida colorida. Não é porque o papel é branco que deve permanecer branco. As folhas brancas estão aí para serem coloridas. E assim é a vida, colorível. Com os sentimentos de amor vem a bondade, a alegria e a vida se torna branda, bem colorida. São esses sentimentos que fazem com que a vida seja colorivel.

A vida ganha cor para que possamos apreciá-la, para não olharmos para ela e nos sentirmos amargos e infelizes, pois as cores trazem a felicidade.

Se os nossos sonhos forem em preto e branco, devemos fazer com que a vida seja muito mais que em preto e branco. Devemos dar cor à vida, porque ela é colorivel e ser colorivel é poder ter a oportunidade de colorir a vida.

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Marilina Baccarat de Almeida Leão
In Colorindo a vida
Imagem: rainbow-rays-light-fun (Google)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

XVII - UM HEMISFÉRIO EM UMA CABELEIRA
Charles Baudelaire


Deixa-me aspirar durante muito tempo, muito tempo, o odor de teus cabelos e mergulhar neles todo o meu rosto, como um homem com sede na água de uma fonte, e agitá-los com minha mão como um lenço perfumado para dispersar as lembranças no ar. Se pudesses saber tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que percebo em teus cabelos! Minha alma viaja sobre esse perfume como a alma de outros homens sobre a música.
Teus cabelos contêm todo um sonho, cheio de velas e mastros; eles contêm os grandes mares para onde as monções me levam, os climas charmosos onde o espaço é mais azul e mais profundo; onde a atmosfera é perfumada pelas frutas, pelas folhas e pela pele humana.
No oceano de tua cabeleira entrevejo um porto formigando de cantos melancólicos, de homens vigorosos de todas as nações e de navios de todas as formas recortando suas finas e melancólicas arquiteturas sob um céu imenso onde se espreguiça o eterno calor.
Nas carícias de tua cabeleira reencontro langores das longas horas passadas sobre um divã, no quarto de um belo navio, embalado pelo imperceptível balanço das águas do porto, entre vasos de flores e bebidas refrescantes.
No ardente ninho de tua cabeleira respiro o odor de tabaco misturado ao ópio e ao açúcar; na noite de tua cabeleira vejo o infinito resplendor do azul tropical; sobre as margens cheias de penugem de tua cabeleira embriago-me com os odores de alcatrão, de almíscar e de óleo de coco.
Deixa-me morder, demoradamente, tuas tranças pesadas e negras. Quando mordisco teus cabelos elásticos e rebeldes parece-me que estou comendo lembranças.

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Charles Baudelaire
In Pequenos poemas em prosa (O Spleen de Paris)
Imagem: pintura de Jack Vettriano

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

PRIMAVERA
Cecília Meireles

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

 

In Obra em Prosa - Volume 1

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

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LEMBRE-SE DE MIM COMO UM POETA
Osho

Quando eu me for, por favor lembre-se de mim como um poeta, e não como um filósofo.

A poesia precisa ser entendida de maneira diferente — você precisa amar a poesia, e não interpretá-la.

Você precisa repeti-la muitas vezes, de tal modo que ela se misture com o seu sangue, com os seus ossos, com a sua própria medula.

Você precisa recitar poesia muitas vezes, de tal modo que possa sentir todas as nuanças, as suas formas sutis.

Você precisa sentar-se simplesmente e deixar a poesia entrar em você, para que ela passe a ser uma força viva. Você a digere e depois se esquece dela; ela entra cada vez mais fundo e o transforma.

Deixe que eu seja lembrado como um poeta. É claro — não estou escrevendo poesias em palavras. Estou escrevendo num veículo mais vivo — em você. E é isso que toda a existência está fazendo.


Imagem da Internet, by Google, sem id. de autoria

sábado, 13 de fevereiro de 2010

                                       Imagem do Jardim de D. Rosa

E um dia, quando Phardrous, o grego, passeava pelo Jardim, bateu com o pé numa pedra e ficou furioso. E voltou-se e apanhou a pedra, dizendo numa voz baixa: “ó coisa morta em meu caminho!” E atirou a pedra para longe.

E Al Mustafa, o Eleito e o Bem-Amado, disse: “Por que dizes ‘ó coisa morta’? Tens estado tanto tempo neste Jardim e não sabes que não há nada morto aqui? Todas as coisas vivem e brilham no saber do dia e na majestade da noite. Tu e a pedra não sois senão um só. A única diferença está no ritmo das pulsações de vossos corações. Teu coração bate um pouco mais rapidamente. Não é, meu amigo? Ah, mas não é tão tranquilo quanto ela.

Seu ritmo e teu ritmo podem ser diferentes, mas eu te digo que se sondares as profundezas de tua alma e medires as alturas do espaço, não ouvirás senão uma melodia, e nessa melodia a pedra e a estrela cantam, uma com a outra, em perfeita consonância.

Se minhas palavras não alcançam teu entendimento, então espera por outra aurora. Se amaldiçoaste esta pedra, porque, em tua cegueira, nela tropeçaste, então almadiçoarias uma estrela se, desse mesmo modo, tua cabeça desse de encontro com ela no céu. Mas chegará o dia em que juntarás pedras e estrelas como uma criança colhe os lírios do vale, e então saberás que todas as coisas são vivas e fragrantes.

(Khalil Gibran, in O Jardim do Profeta)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Voz: Gilberto Miranda Jr. Ilustração de telas: Salvador Dali.
Fonte do Vídeo >
AQUI

SOBRE A LOUCURA
Edward Bond

Nós não podemos falar nada sobre nós e a nossa época, sem começarmos por definir a loucura.

Como é que se explica que nós sejamos seres dotados de razão, enquanto a nossa sociedade é tão ligada à loucura?

Como as pessoas que tem toda a sua razão podem agir como se estivessem loucas e acreditar nas idéias loucas que a sociedade lhe impõe?

Nós podemos encontrar uma resposta com aqueles que perderam a razão.

O que é que os deixou loucos?

As pessoas ficam assim quando não chegam a criar uma relação funcional e prática com a sociedade e com a realidade.

O que eles fazem?

Eles criam uma sociedade que é uma realidade para eles.

Eles ficam loucos para não perder a sua razão.

A sua loucura é a explicação que eles dão para a loucura que eles encontram no mundo.

sábado, 23 de janeiro de 2010

 dialogosobreoamor 
            Imagem da Internet, até o momento sem identificação de autoria

 

A  jovem discípula acercou-se do mestre e, ruborizando-se, pediu-lhe que falasse do amor.
O Sábio sorriu, e, desculpando-se, perguntou-lhe o que ela considerava como sendo o amor.
Emocionando-se, a aprendiz explicou:
- Compreendo o amor, como sendo a ânsia que experimentam as praias, que aguardam os beijos sucessivos das ondas contínuas do mar;
como a sofreguidão que tem a raiz de introduzir-se no solo, a fim de sustentar a planta;
como a expectativa da rocha que anela pela carícia do vento, embora se desgaste com isso;
como o desejo infrene da terra crestada, pela generosidade da chuva;
como a flauta aguarda pelo sopro que lhe arranca das entranhas a doce melodia;
como o barro esquecido pede ao oleiro que lhe dê forma e beleza; como a semente que necessitava despedaçar-se, para libertar a vida;
como a lâmpada apagada que exige a energia para brilhar.
O amor é o sangue novo para o coração e o vinho bom para aquecer a criatura, quando o frio lhe enregela a vida.
Assim vejo e sinto o amor.
E vós, como vedes o amor?
- O amor é o doce e compreensivo companheiro da criatura em todo os dias da sua vida.
Se esta é jovem, ei-lo que se apresenta, ardente e apaixonado, como no teu caso, mas que segue adiante.
O amor é calmo e ameno.
Não incendeia paixões; dulcifica-as.
Confundido com o desejo, permanece, quando este passa.
Nunca se irrita; porque espera.
Considerado como instinto, persiste, quando descoberto pela razão.
Jamais perturba; pois que felicita e produz harmonia.
O amor é claridade que permanece; é pão que nutre; é vida que se irradia da vida.
Mesmo quando não identificado, encontra-se presente, porque, sem ele, a vida não existe ou perderia o sentido de ser.
A jovem ardente, empalideceu, e, submissa à voz do amor, pediu ao mestre:
- Ensina-me a amar, eu que agora corro em busca do amor, sem dar-me conta que, em mim, ele se deve irradiar, abrangente, em todas as direções.
- Não te apresses no amor, e descobrirás que já começaste a amar, quando sentires necessidade de doar e doar-te sem desejares receber nada em retribuição.

 barrinha_rosa   barrinha_rosa

“Em algum lugar no futuro”,
de Divaldo P. Franco,
pelo Espírito Eros

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Dedicado a todos os professores, em especial ao Prof. Nelson e Profª Sônia Regly, escolhidos “Professores Destaque Dihitt 2009
Esta homenagem vai também para duas amadas professoras: Iara e Rita de Cássia.


Vídeo com locução do próprio autor. Fonte: Paulasevi

PROFESSORES APAIXONADOS
Gabriel Perissé

Professores e professoras apaixonadas acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de que podem mover o mundo.

Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão preocupados com as múltiplas fomes que, de múltiplas formas, debilitam as inteligências.

As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos.

Não há pretextos que justifiquem, para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de romantismo barato. Apaixonar-se sai caro!

Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria.

Se estão apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem paixão.

Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário os próximos feriados.

Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e seu protesto é continuar amando apaixonadamente.

Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café ralo, não foge pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro. Ter fé impede que o medo esmague o amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.

Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma forma de oração. Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou ríspida. Mera oração subordinada, e mais nada.

Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar esforços, dividir os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o mapa de inusitados tesouros.

Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar.

A paixão é inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.

Gabriel Perissé é doutor em Filosofia da Educação pela USP e autor do livro O professor do futuro (Thex Editora).

domingo, 27 de dezembro de 2009

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                                         Pintura de Salvador Dali

CONDUTA E POESIA
Pablo Neruda

Quando o tempo nos vai comendo com o seu relâmpago quotidiano decisivo, as atitudes fundadas, as confianças, a fé cega se precipitam e a elevação do poeta tende a cair como o mais triste nácar cuspido, perguntamo-nos se já chegou a hora de envilecermos. A hora dolorosa de ver como o homem se sustém a puro dente, a puras unhas, a puros interesses. E como entram na casa da poesia os dentes e as unhas e os ramos da feroz árvore do ódio.
É o poder da idade, ou proventura, a inércia que faz retroceder as frutas no próprio bordo do coração, ou talvez o «artístico» se apodere do poeta e, em vez do canto salobro que as ondas profundas devem fazer saltar, vemos cada dia o miserável ser humano defendendo o seu miserável tesouro de pessoa preferida?
Aí, o tempo avança com cinza, com ar e com água! A pedra que o lodo e a angústia morderam floresce com prontidão com estrondo de mar, e a pequena rosa regressa ao seu delicado túmulo de corola.
O tempo lava e desenvolve, ordena e continua.
E que fica então das pequenas podridões, das pequenas conspirações do silêncio, dos pequenos frios sujos da hostilidade? Nada, e na casa da poesia não permanece nada além do que foi escrito com sangue para ser escutado pelo sangue.

In Nasci para nascer, 1981

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

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                                                Pintura de Brian Davis


ALMAS PERFUMADAS 
Ana Cláudia Saldanha Jácomo
(para  sua avó Edith)

Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende a ver.
Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.
Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.
Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.
Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, porque acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Minha avó era alguém assim. Ela perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas. E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ela mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de tudo o que ela amou. E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus, que, numa temporada, se vestiu de Edith, para me falar de amor.


Fonte do texto:
anajacomo.blogspot.com/2009/10/almas-perfumadas.html

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

CECÍLIA MEIRELES NA VOZ DA POESIA >> AQUI

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                              Pintura de Alexander Volkov

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Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio,
ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem,
para as gotas de água que caíam de seus dedos magros
e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.

Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela,
uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente,
que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


©Cecília Meireles
Voz: Sereníssima
Música de fundo:
Poema de Amor - Carlos Barbosa Lima

CONHEÇA MAIS DE CECÍLIA MEIRELES >> AQUI

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sábado, 24 de outubro de 2009
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                           Pintura de Cao Yong
 

Clique para ouvir

FAZER AMOR É PISAR NA ETERNIDADE
Texto atribuído a um Frei do Colégio Santo Agostinho


Fazer amor é coisa séria demais…
Não basta um corpo e outro corpo,
Misturados num desejo insosso desses que dão feito fome trivial,
Nascida da gula descuidada aplacada sem zelo,
Sem composturas, sem respeito,
Atendendo exclusivamente a voracidade do apetite. 

 
Fazer amor é percorrer as trilhas da alma,
Uma alma tateando outra alma,
Desvendando véus, descobrindo profundezas,
Penetrando nos escondidos sem pressa… com delicadeza. 


Porque alma tem textura de cristal,
Deve ser tocada nas levezas apalpada com amaciamentos,
Até que o corpo descubra cada uma das suas funções…
Quando a descoberta acontece é que o ato de amor começa. 


As mãos deslizam sobre as curvas, como se tocando nuvens,
A boca vai acordando e retirando gostos, provando os sabores,
Bebendo a seiva que jorra das nascentes escorrendo em dons.


É o côncavo e convexo em amorosa conjunção.
Fazer amor é ressurreição! É nascer de novo!
No abraço que aperta sem sufocamentos,
No beijo que fala a sede gritante,
Na escada dos degraus celestiais que levam ao gozo! 


Vale chorar!
Vale gemer!
Vale gritar! 


Porque aí já se chegou ao paraíso,
E qualquer som há de sair,
Quem sabe afinado,
Seja grave, agudo, pianinho,
Há de ser sempre o acorde faltante,
Quando amantes iniciam o milagre do encontro. 


Corpos se ajustaram, almas matizaram:
Fez-se o êxtase
É o instante de Paz
É a escritura da serenidade
E os amantes em assunção, pisam eternidades! 


 

Fonte do áudio:
Voz: Carlos Alberto de Oliveira
Trilha: Love History



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terça-feira, 22 de setembro de 2009

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EU SEI O QUE É PRIMAVERA
Clarice Lispector
5 de outubro de 1968

Bem sei que é uma vaidade dizer em plena primavera que eu sei o que é primavera. Às vezes porém sou tão humilde que os outros me chamam a atenção. É uma humildade feita de gratidão talvez excessiva, é feita de um eu de criança, de susto também de criança. Mas, desta vez, quando percebi que estava humilde demais com a alegria que me era dada pela vinda da primavera chuvosa, dessa vez apossei-me do que é meu e dos outros.
Sei o que é primavera porque sinto um perfume de pólen no ar, que talvez seja o meu próprio pólen, sinto estremecimentos à toa quando um passarinho canta, e sinto que sem saber eu estou reformulando a vida. Porque estou viva. A primavera torturante, límpida e mortal que o diga, ela que me encontra cada ano tão pronta para recebê-la. Bem sei que é uma perturbação de sentidos. Mas, por que não ficar tonta? Aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande Outro existir apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.
Sinto que viver é inevitável. Posso na primavera ficar horas sentada fumando, apenas sendo. Ser às vezes sangra. Mas não há como não sangrar pois é no sangue que sinto a primavera. Dói. A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração enfraquecido.


In A descoberta do mundo - Crônicas. Ed. Rocco, 1999

terça-feira, 4 de agosto de 2009

… Ela acaba quando nosso corpo e alma se vão ou quando tristemente deixamos de sonhar

marinasilva_pequenosmundos                                     Foto: Marina Silva (pequenos mundos)


A MENINA E OS POTES DE SONHOS
Norma Santi

Era uma vez uma menina que habitava o corpo de uma mulher. Mas de tempos em tempos a menina se sentia cansada. Parecia-lhe mesmo que o mundo andava às avessas. Como menina, cultivava seus sonhos, colocava-os empilhados em pequenos potes. Acreditava que assim poderia abri-los e que a cada dia o mundo se revestiria de poderes mágicos e transformaria seus sonhos mais secretos em realidade. Um mundo assim seria uma sucessão de desejos e encantamentos. O dia só poderia começar e acabar por uma força superior interessada em realizar seus pequenos caprichos de menina.

Mas os dias passaram indiferentes à sua vontade e duramente lhes ensinaram que a vida depende do que é concretizado pelo esforço das próprias mãos. Descobriu que o dia começa e termina com o sol e que ele brilha para todos. Ou ao menos deveria ser assim. Em seu pequeno mundo eram tantas as tarefas diárias que se esquecia de ver o sol despertar e adormecer. Esqueceu de ver que desabrochara a flor que outrora plantou. Seus potes de sonhos ficaram num canto qualquer da casa em que habitavam seus desejos. Fechados juntavam os pós dos dias. As marcas do tempo. Aguardavam pacientemente que terminassem as tribulações da menina. Assim como a menina, os sonhos são imortais. Existe uma menina infinitamente em cada mulher. E é e nela que se encontram os sonhos. Mesmo quando adormecidos.

Um belo dia a mulher em que mora a menina, resolveu fazer uma faxina na alma. Colocou sobre a prateleira da vida cada um de seus potes de sonhos. Verificou o prazo de validade. Observou-os atentamente. Aprendera a não consumir nada que já estivesse vencido. Surpreendeu-se com o fato de os sonhos não serem tão práticos assim. Não havia neles prazo de validade. Tão pouco datas de fabricação.

Agora não tinha outro jeito. Só saberia se abrisse os potes. A sua experiência lhe diria os que ainda poderiam ser consumidos. Abriu o primeiro. O sonho se revelou algo familiar. Viu nascer um menino. E o menino dormia tranquilamente sobre sua barriga. Abriu o segundo e uma menininha lhe sorriu. Percebeu que por ali havia passado o condão mágico dos tempos. Os potes guardavam as memórias dos sonhos que haviam se realizado. Compreendeu que mãos e sonhos andam juntos. Havia potes vazios e concluiu que deveriam pertencer aos sonhos que tinham se perdido. Havia os que lhe causavam estranheza.

Jogou fora os potes vazios. Guardou com carinho os que traziam dentro de si as mais ricas lembranças. E bem pertinho dos olhos deixou os carregados de mistério. Sorriu. Sabia que esses poderiam se transformar em potes de lembranças ou se esvaziar de sentido. Resolveu alimentá-los. Os sonhos se alimentam do brilho de nosso olhar. Eles são a nossa esperança. É por isso que se diz que a esperança é a última que morre. Ela acaba quando nosso corpo e alma se vão ou quando tristemente deixamos de sonhar.

Fonte: normasanti.blogspot.com

segunda-feira, 27 de julho de 2009

euviummenino
                              Foto de Marcus Vinicius de Faria Oliveira

A UM MENINO
Carla Jaia

Devo dizer, menino, que não posso ouvir a sua história enquanto me apego à minha falsa honradez. Não posso ouvir seus desatinos, seus segredos de becos e de pés no chão, a primeira arma de fogo na sua mão, não posso ouvir esses destroços, menino, se a piedade é o que me toma e se invento, em meus sonhos seguros, o que seria melhor para você. Não posso ouvir você, menino, se só vejo erro. Sinto tonturas enquanto ouço sua voz, tonturas de grávida, eu tenho enjôos de parir você pela boca. Pela boca de onde sai a minha palavra certa e rígida, minha palavra treinada no bom tom que me ensinaram. Queria saber ouvir e silenciar, e depois deixar a palavra dançar sem se constranger. Dar um basta em minha vontade de assepsia e calcar meus pés descalços no chão que nós pisamos. Gosto dos seus olhos. Eu queria não ser anjo, menino, e dar umas férias à minha dama de companhia. Queria abandonar a meiguice estrondosa da minha voz suave e aprender a falar feito gente. Queria descascar. Queria que você entendesse um pouco dessa coisa de ser mulher e de achar que, para tal, é importante ser sutil. Tivesse eu um pouco de coragem lançaria minha boca em tosses sangrentas, adoeceria sem dó a dor do mundo, e adormeceria aos apelos da noite vazia. Em silêncio. Ouviria sua voz, então, menino das ruas. Ouviria nossa voz, de menino e menina, de homem e mulher, nossa voz de gente, nossa voz de bicho, gritaria ao seu lado meu urro de leoa e não temeria as feridas que você desenha. Só então me sentiria à vontade para cobrir você com meu lençol mais elegante e para cantar musiquinhas de ninar. Só depois de ouvir a sua voz, criança, eu voltaria a ser princesa e reinventaria sem vergonha a minha delicadeza. Se me envergonho hoje de ser delicada, é tudo porque ando calando meus urros numa farsa medrosa. Tenho medo, criança. Mas aí está você que não me deixa mentir.


Fontes:
do texto: http://bailedemascaras.wordpress.com
da foto: http://br.olhares.com/marcusvinicius30

quinta-feira, 21 de maio de 2009

mulher_78  
                                     Imagem: Jenedy Paige

OLHAR JARDINEIRO
Ana Cláudia S. Jácomo

Quem ama vê bem, de longe. Quem ama vê bem de perto. Quem ama vê além e ama o que vê. Não há nada a ser mudado, incluído, excluído, para que o amor exista, ele simplesmente é. Olhar jardineiro, que ouve a música original da semente, tanto faz como ela consiga dizer as suas flores. Olhar de ourives, que sente a jóia tantas vezes ainda escondida no silêncio da matéria-prima. Olhar de pescador: não importa o momento do mar, sabe as riquezas que ele guarda, quer as redes retornem cheias ou vazias.

Quem ama vê além e confia no que vê. E é a confiança atemporal e bela desse olhar que atravessa as nossas aparências e, vendo a nossa essência, nos diz seu amor, que buscamos pela vida. Esse olhar que nos ouve, nos sente, nos sabe, e, ouvindo, sentindo, sabendo, nos ama exatamente como somos. Como podemos ser. Como conseguimos, seja lá o que isso significa a cada instante. Poucos lugares têm um cheiro tão bom de descanso e liberdade como tem esse olhar. É maravilhoso recebê-lo. É maravilhoso ofertá-lo. É maravilhoso trocá-lo.


Fonte: anajacomo.blogspot.com

quarta-feira, 1 de abril de 2009

clarice_lispector_e_o_mar
                                                            Clarice Lispector


APRENDENDO A VIVER (FRAGMENTO)
CLARICE LISPECTOR

“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”


Texto extraído do livro "Aprendendo a viver", Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004

Fontes:
do texto: luso-poemas.net
da imagem: Nara França

domingo, 29 de março de 2009

stanislaw_ponte_preta   Vinicius de Moraes 
              Stanislaw Ponte Preta                              Vinicius de Moraes


OS VINICIUS DE MORAES
STANISLAW PONTE PRETA


Eu confesso a vocês que descobri o segredo do coleguinha jornalista, poeta, diplomata e teleco-tequista Vinicius de Moraes numa tarde em que ambos (não ambos os Vinicius, como ficará provado mais tarde, mas ambos: eu e ele) tomávamos umas e outras no Bar Calypso, num desses crepúsculos vespertinos de Ipanema que já baixam pedindo um chope.
Estávamos lá “entornando”, quando chegou minha hora de subir para Petrópolis:- Poetinha, eu vou me mandar – disse eu. Ele suspirou, ante a perspectiva de ter de ficar sozinho e desejou boa viagem. Eu entrei no carro e subi para Petrópolis, onde cheguei certo de que nenhum carro passara pelo meu na estrada. No entanto, parei na Avenida 15 da cidade serrana, manobrei o carro e coloquei na vaga indo tomar mais um na Confeitaria Copacabana. Quando entrei e olhei para as mesas, vi que um camarada me saudava lá de dentro: era Vinicius de Moraes. Foi nessa tarde - repito – que eu descobri que Vinicus era, pelo menos dois. Está claro que podem haver mais de dois. Duvido até que as múltiplas atividades de Vinicius (reparem que seu nome já é no plural para enganar os trouxas) possam ser realizadas só por dois deles. Acredito mesmo que haja uma meia dúzia de Vinicius: um para poesia, um para diplomacia, outro para samba, um quarto para jornalista e o resto para mulher. Desses, os mais assoberbados talvez sejam os últimos. Eu acho, outrossim, que sou o único ao qual Vinicius (não sei qual deles) deu a pala de que eles são uma equipe e não um homem, por isso fico rindo dos coleguinhas que disputam o privilégio de noticiar o Vinicius certo na hora exata. Os jornais de ontem, por exemplo, estavam muito pitorescos sobre Vinicius (todos os Vinicius). Em Última Hora a confreirinha jornalista Teresa Cesário Alvim, num esforço de reportagem, dizia: “Vinicius de Moraes anda a todo vapor, de uns tempos para cá. Tomou pressão em Petrópolis e desceu a serra carregado de idéias, jorrando inspiração para todos os lados. “ (Coitada da Teresa, não sabe que há Vinicius pela aí tudo.) Já o coleguinha Jacinto de Thormes, no mesmo dia, na mesma UH e talvez escrevendo à mesma hora, dizia: “O Senhor Vinicius de Moraes está fazendo uma temporada de repouso na Clínica São Vicente.” De fato, há um dos Vinicius que está repousando, o que explica as notícias tão desencontradas de dois colunistas, no mesmo jornal, no mesmo dia. No mesmo dia, aliás, o Carlos Alberto escrevia na sua coluna: “O poeta Vinicius de Moraes, ontem de madrugada, conversando no Restaurante Fiorentina.” É verdade. Vinicius estava lá no Fiorentina, numa roda batendo papo. Dezenas de testemunhas podem provar o que o Carlos Alberto disse. Estava também tomando oxigênio, na Clínica São Vicente, estava em casa com amigos, compondo sambas ao som do violão de Baden Powell, estava no Cine Alvorada, assistindo a “Morangos Silvestres” (o porteiro me disse que o Vinicius já assistiu à fita quatro vezes, mas é mentira. Vários Vinicius ainda não viram). Como, minha senhora? A senhora não acredita que Vinicius seja uma porção? Azar o seu, dona. Um dia ainda se fará um programa de televisão com Vinicius ao violão, acompanhando outro Vinicius que canta, junto com um quarteto vocal de Vinicius. Sem vídeo-tape. Quem tem razão é Tia Zulmira, quando diz que, se Vinicius de Moraes fosse um só, não seria Vinicius de Moraes, seria Vinício de Moral.


1.Texto originalmente publicado na 4ª edição do livro Rosamundo e os outros, de Stanislaw Ponte Preta, editado pela Civilização Brasileira (1975)

2.Stanislaw Ponte Preta é um fantástico personagem criado pelo jornalista carioca Sérgio Porto [1923 – 1968]. Rosamundo e os outros é o terceiro título de uma série que ainda inclui Tia Zulmira e eu e Primo Altamirando e elas.

Fonte: nasescuridoes.blogspot.com

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

mito_caverna
Gerd Bornheim


SÓCRATES – Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto. Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos bonecos maravilhosos que lhes exibem.

GLAUCO - Imagino tudo isso.

SÓCRATES - Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos que se elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam em silêncio.

GLAUCO - Similar quadro e não menos singulares cativos!

SÓCRATES - Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do fogo, na parede que lhes fica fronteira?

GLAUCO - Não, uma vez que são forçados a ter imóveis a cabeça durante toda a vida.

SÓCRATES - E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras?

GLAUCO - Não.

SÓCRATES - Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das sombras que vêem, lhes dariam os nomes que elas representam?

GLAUCO - Sem dúvida.

SÓRATES - E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam, não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos?

GLAUCO - Claro que sim.

SÓCRATES - Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que desfilaram.

GLAUCO - Necessariamente.

SÓCRATES - Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via.

Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam ante os olhos, o obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?

GLAUCO - Sem dúvida nenhuma.

SÓCRATES - Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados?

GLAUCO - Certamente.

SÓCRATES - Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem reais?

GLAUCO - A princípio nada veria.

SÓCRATES - Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.

GLAUCO - Não há dúvida.

SÓCRATES - Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol, primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é.

GLAUCO - Fora de dúvida.

SÓCRATES - Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.

GLAUCO - É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.

SÓCRATES - Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de escravidão e da idéia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?

GLAUCO - Evidentemente.

SÓCRATES - Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia?

GLAUCO - Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a viver da maneira antiga.

SÓCRATES - Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?

GLAUCO - Certamente.

SÓCRATES - Se, enquanto tivesse a vista confusa -- porque bastante tempo se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade -- tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?

GLAUCO - Por certo que o fariam.

SÓCRATES - Pois agora, meu caro GLAUCO, é só aplicar com toda a exatidão esta imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo inteligível está a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos.


Extraído de "A República" de Platão . 6° ed. Ed. Atena, 1956, p. 287-291

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