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terça-feira, 23 de novembro de 2010

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ADVENTO 1
Rainer Maria Rilke

A minha luta é esta:
sagrado de saudade
divagar pelos dias.
Depois, largo e forte,
com mil raízes fundo
mergulhar vida dentro —
e, amadurecido em dor,
ir longe para além da vida,
longe, para além do tempo.

Minha solidão sagrada,
és tão rica e pura e ampla
como um jardim que desperta.
Sagrada solidão minha —
fecha as tuas portas de ouro
ante os desejos que esperam.

O dia adormece manso, —
vagueio longe dos homens…
Despertos, em vasto círculo,
eu — e uma estrela pálida.

Seu olhar de luz entretecido
repousa claro e cintilante em mim;
parece estar, lá no céu,
tão só como eu aqui…

Fonte >> DAQUI
Imagem: pintura de Frederic Edwin Church

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Alexandru_Darida_a_midsummer_nights_dream 
                                   Pintura de Alexandru Darida

O MUNDO ESTAVA NO ROSTO DA AMADA
Rainer Maria Rilke

O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

Tradução: Augusto de Campos

Conheça mais da obra de Rainer Maria Rilke:
A VOZ DA POESIA
Creative Commons License

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Alexei_Butirskiy_a_cold_winters_night                               Pintura de Alexei Butirskiy

AMO AS HORAS NOTURNAS
Rainer Maria Rilke

Amo as horas noturnas do meu ser
em que se me aprofundam os sentidos;
nelas fui eu achar, como em caras velhíssimas,
já vivida a vida dos meus dias
e como lenda longínqua e superada.

Delas eu aprendi que tenho espaço
para uma segunda vida, vasta e sem tempo.

E por vezes me sinto como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
realiza o sonho que o menino foi
(em volta do qual apertam suas raízes quentes)
e perdeu em tristezas e canções.


©Rainer Maria Rilke
In Poemas As Elegias de Duíno Sonetos a Orfeu
Edições Asa, 2001
Tradução de Paulo Quintela

Conheça mais da obra de Rainer Maria Rilke:
A VOZ DA POESIA
Creative Commons License

sexta-feira, 27 de março de 2009

rainer_maria_rilke 
                                        Rainer Maria Rilke

A impressionante história do nascimento das Elegias de Duíno, como nos conta Emmanuel Carneiro Leão na introdução do livro Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno (Editora Vozes, Petrópolis, 1989):
”As Elegias operam a explosão de seu próprio nascimento. Nasceram de uma experiência extra-ordinária do extra-ordinário: um acontecimento inesperado, violento, perigoso, um verdadeiro furacão de poesia se abatera sobre o espírito do poeta. Em janeiro de 1912 Rilke passava o inverno no Castelo de Duíno numa falésia à beira do Adriático. Tinha recebido uma carta de negócios. A resposta exigia uma decisão grave de mudanças e transformação. Saiu para pensar na resposta ao ar livre. Formava-se uma tempestade e o vento começou a soprar forte. A resposta o absorvia. Andava de um lado para o outro, a uns 70 metros da água, lutando por uma decisão. De repente parou. Era como se do meio da tempestade uma voz lhe retirasse da boca e inscrevesse no barulho do vento as palavras: Se gritasse, quem das legiões de anjos escutaria o grito?
Castelo_de_Duino 
                                      Castelo de Duíno
Rilke se recolheu todo à escuta do que estava por vir. Sentindo a presença da poesia, anotou as palavras e alguns outros versos que ainda se formaram sem nenhuma participação sua. Voltou para o Castelo e naquela mesma noite a primeira elegia estava pronta. A segunda seguiu alguns dias depois, e no final do inverno os primeiros versos de todas as outras lhe foram dados da mesma maneira. Alguns fragmentos apareceram ainda em viagens a Toledo, Ronda e Paris e logo tudo silenciou. Rilke sabia da importância do que lhe sucedera e esperou por 10 anos o retorno do Inesperado.
[...] Espera retomar o fluxo interrompido tão logo encontre um abrigo adequado, como o Castelo de Duíno destruído na [Primeira] guerra [Mundial]. Passando pelo país do Valais, chega a Sierre e descobre o lugar ideal num pequeno castelo do século XIII: Muzot. Um cartaz anunciava venda ou aluguel. Seu amigo, Walter Reinhart, o adquire e põe à disposição do poeta que lá se instala no início do verão de 1921.
No retiro de Muzot Rilke espera. Mas era uma espera criadora. Lia e traduzia Paul Valéry [...] Na noite de 1º de Janeiro de 1922 chegou uma carta de Gertrude Oukama Knoop. A mãe relata a doença e morte da filha. Era um sinal. Na passagem do ano o Anjo da morte falava de transformação: uma jovem com estranho poder de sedução, uma pessoa extra-ordinária, feita para a dança, a música e as artes, deixara a juventude para entrar na morte e reintegrar-se ao todo. Rilke é tomado pelo canto criador de Orfeu. [...] Prepara-se a fúria de uma nova tempestade semelhante à que o surpreendera dez anos antes na falésia de Duíno. [...]Após uma angústia de dez anos, a poesia retomou a força dos elementos e em nova tempestade abriu caminho para a liberdade. Em cinco dias de total dedicação, de 7 a 11 de fevereiro, todo o conjunto das Elegias estava pronto.”
E para quem tiver curiosidade: o Castelo de Duíno (foto) fica no Trieste e pertence à família von Thurn und Taxis. Reconstruído, é a residência particular da Princesa von Thurn und Taxis, e encontra-se em parte aberto à visitação pública.


Fonte: paraserzen.blogspirit.com
quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Angel_of_Capricorn
                                               imagem: Jonhaton Earl Bowser 


Têm todos bocas cansadas
e almas claras, sem orla.
E passa-lhes por vezes pelos sonhos
uma saudade (como de pecado).
Parecem-se quase todos uns aos outros;
estão calados nos jardins de Deus,
como muitos, muitos intervalos
no seu poderio e melodia.
Só quando desdobram as asas
é que despertam qualquer vento:
Como se Deus, com as suas largas
mãos de estatuário, passasse
as folhas do escuro Livro do Princípio


[Os anjos - Rainer Maria Rilke]

domingo, 5 de outubro de 2008

mulher_45
                                         imagem da internet


O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

[O mundo Estava no Rosto da Amada - Rainer Maria Rilke Tradução: Augusto de Campos]

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