sábado, 27 de setembro de 2008

cantando_na_chuva imagem da internet

O poeta ia bêbedo no bonde.
O dia nascia atrás dos quintais.
As pensões alegres dormiam tristíssimas.
As casas também iam bêbedas.

Tudo era irreparável.
Ninguém sabia que o mundo ia acabar
(apenas uma criança percebeu mas ficou calada),
que o mundo ia acabar às 7 e 45.
Últimos pensamentos! últimos telegramas!
José, que colocava pronomes,
Helena, que amava os homens,
Sebastião, que se arruinava,
Artur, que não dizia nada,
embarcam para a eternidade.

O poeta está bêbedo, mas
escuta um apelo na aurora:
Vamos todos dançar
entre o bonde e a árvore?

Entre o bonde e a árvore
dançai, meus irmãos!
Embora sem música
dançai, meus irmãos!
Os filhos estão nascendo
com tamanha espontaneidade.
Como é maravilhoso o amor
(o amor e outros produtos).
Dançai, meus irmãos!
A morte virá depois
como um sacramento.

[Aurora  - Carlos Drummond de Andrade]

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

drummond
                                              imagem da internet

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.

[Poesia - Carlos Drummond de Andrade]

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

salvador_dali 
                                                salvador dali


És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.
Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

[Epigrama nº 2 - Cecília Meireles]

amizade_58  
                                        imagem da internet

"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. "

[Fragmentos de Caio F. Abreu]

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

solidao_6565imagem da internet

Guardei-me para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:
Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.

É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;
É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto
Que nem sonhei.

[Guardei-me para ti - Lya Luft]

doiscorposimagem da internet


Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

anderson_poesia
                                                 imagem: arquivo pessoal

Clique na imagem para ampliar

No campo de teus sonhos
Colherei os segredos que
Por ti zelam, pra que, de meus dedos,
Escorram as sete chaves de tua alma;
Doação comedida
De teu amor.

Em minhas mãos,
Tuas portas romperão
O silêncio
Da noite
E, então, renascerás luz
Frente às sombras
Das páginas brancas.

[Anderson Christofoletti]

mulher_na_rede_carybe
                                             imagem: Carybé

Oh, minha rede que embala
Mais meus sonhos que meu sono,
Ainda quero morrer em ti, sem fala,
Enquanto ouço teu silêncio risonho...

Oh, rede que a mim sabe acolher,
Nada exige, nada cobra, nada implora,
No teu embalar, me ajuda viver,
No teu colo, minha alma acompanhada chora...

Oh, minha rede de sonho e poesia,
Que recolhe minhas lágrimas de madrugada,
Paciente, aguarda o retorno do meu dia,
E, depois de tudo, mais nada...

[Minha rede - Dora Brisa]
Fonte: AQUI

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