sexta-feira, 3 de abril de 2009


Música: Movimento dos Barcos
Intérprete: Jards Macalé
Composição: Jards Macalé e Capinan


Estou cansado e você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais
Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais
Que passa ao largo do nosso corpo
Não quero ficar dando adeus
As coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais
Do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo
Não, não sou eu quem vai ficar no porto
Chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento
poetica e cotidiana

Michael_and_Inessa_blooming_beauty1     
                                                     Michael and Inessa Garmash


QUE MÚSICA ESCUTAS TÃO ATENTAMENTE?
Eugénio de Andrade

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Insonia
                             imagem da internet

INSÔNIA
Manuel Antonio Pina


O dia entra no quarto
pela janela fechada
apagando as sombras onde
a alma se ocultava.

Aproximam-se as horas do silêncio
e do ruído, e fico só de novo.
Abro a janela e fecho alguma coisa
(provavelmente a infância) dentro d’alma. 

Talvez não passe tudo de memória,
de coisas de que alguém se recordasse,
a minha vida, os dias e as noites,
e a minha própria infância me faltasse. 

Talvez eu seja um vago sentimento
mal aflorando o coração d’alguém
à hora breve em que o dia vem
em algum sítio só de pensamento. 

Lá fora ouvem-se vozes acordando,
motores em marcha vibram, a luz arde,
e aos poucos a vida vai ficando
sensação e exterioridade. 

No quarto ao lado as filhas falam alto.
E dou comigo procurando rimas.
— E a alma? — Mas por esta altura
já tudo e eu próprio somos literatura... 


poetica e cotidiana
quinta-feira, 2 de abril de 2009


Poema XV
Pablo Neruda
Interpretado por Paco Ibáñez

Gosto quando te calas
porque ficas como ausente,
e me ouves desde longe,
e minha voz não te alcança.
Parece que teus olhos tivessem voado
e parece que um beijo,
te cerrasse a boca.
Como todas as coisas estão cheias
de minha alma...
emerges tu das coisas,
cheia de minha própria alma.
Borboleta de sonhos,
és como minha alma
e te pareces com a palavra melancolia.
Gosto quando calas
porque ficas como ausente,
estás como que se lamentando,
borboleta que sussurras.
Me olhas de longe e minha
voz não te alcança.
Deixa que me cale com teu silêncio.
Deixa que eu também fale com teu silêncio,
Iluminado como uma lâmpada,
simples como uma aliança.
És como a noite quieta e estrelada,
teu silêncio é como uma estrela,
tão distante e singelo.
Gosto quando calas
porque ficas como ausente.
Distante e dolorida como se tivesses morrido.
Uma palavra então,
um sorriso basta.
E já fico feliz,
feliz com aquilo que não é certo.

Fonte do vídeo
quarta-feira, 1 de abril de 2009

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                                                            Clarice Lispector


APRENDENDO A VIVER (FRAGMENTO)
CLARICE LISPECTOR

“Uma vez eu irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma dessa vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria. Meu corpo, esse serei obrigada a levar. Mas dir-lhe-ei antes: vem comigo, como única valise, segue-me como um cão. E irei à frente, sozinha, finalmente cega para os erros do mundo, até que talvez encontre no ar algum bólide que me rebente. Não é a violência que eu procuro, mas uma força ainda não classificada mas que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove. Nesse instante há muito que o sangue já terá desaparecido. Não sei como explicar que, sem alma, sem espírito, e um corpo morto — serei ainda eu, horrivelmente esperta. Mas dois e dois são quatro e isso é o contrário de uma solução, é beco sem saída, puro problema enrodilhado em si. Para voltar de ‘dois e dois são quatro’ é preciso voltar, fingir saudade, encontrar o espírito entregue aos amigos, e dizer: como você engordou! Satisfeita até o gargalo pelos seres que mais amo. Estou morrendo meu espírito, sinto isso, sinto...”


Texto extraído do livro "Aprendendo a viver", Clarice Lispector. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004

Fontes:
do texto: luso-poemas.net
da imagem: Nara França

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                                         Michael and Inessa Garmash


AS TUAS PALAVRAS VOARÃO
Rabindranath Tagore

Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e agüentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

domingo, 29 de março de 2009
carlos_gomesfrancisco_petronio
                    Carlos Gomes                                        Francisco Petrônio

Música: Quem Sabe?
Intérprete: Francisco Petrônio
Composição: Carlos Gomes e Bittencourt Sampaio




Francisco Petrônio e Dilermano Reis
Uma Voz, Um Violão (1962)





Carlos Gomes ficou reconhecido internacionalmente como compositor de óperas. O que pouca gente sabe é que ele compôs a partir de um universo bastante diversificado, bem próprio de seu estilo, influências e contexto histórico. No seu repertório encontramos música sacra, modinhas, cantatas e operetas. Quando ouvimos suas modinhas nos lembramos de sua origem interiorana, das festas de salões em volta do piano, dos saraus lítero-musicais tão freqüentes no Rio e São Paulo do século XIX.

Nas modinhas e canções de Carlos Gomes encontramos um pouco do lirismo francês e muito dos tons humorísticos das canções italianas, sobretudo a forte presença do estilo verdiano, tão em voga no ensino musical da época. Da sua primeira fase, ainda como estudante de música, destacamos os títulos mais famosos: Hino acadêmico e Quem Sabe? ambas de 1859. A grande parte dos textos musicados por Carlos Gomes eram de caráter romântico, realçando o estilo melodramático, típico das árias de salão.[1]

"Quem sabe", com letra de Bittencourt Sampaio, uma de suas mais famosas composições até hoje, gravada com sucesso por Francisco Petrônio e Dilermando Reis, tendo sido incluída na trilha sonora da telenovela "Senhora", produzida pela TV Globo em 1975 e inspirada no romance homônimo de José de Alencar. A mesma modinha foi interpretada por Ney Matogrosso no show "Pescador de Pérolas", na década de 1980, ao lado de Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Rafael Rabelo.[2]

Quem sabe? (modinha, 1859)
de Carlos Gomes e Bittencourt Sampaio

Tão longe de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Tão longe de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Quisera, saber agora
Quisera, saber agora
Se esqueceste, se esqueceste
Se esqueceste o juramento.
Quem sabe se és constante
Se ainda é meu teu pensamento
Minh’alma toda devora
Dá a saudade dá a saudade agro tormento
Tão longe de mim distante
Onde irá onde irá teu pensamento
Quisera saber agora
Se esqueceste se esqueceste o juramento.


Fontes:
[1]  cifrantiga3.blogspot.com
[2] dicionariompb.com.br

stanislaw_ponte_preta   Vinicius de Moraes 
              Stanislaw Ponte Preta                              Vinicius de Moraes


OS VINICIUS DE MORAES
STANISLAW PONTE PRETA


Eu confesso a vocês que descobri o segredo do coleguinha jornalista, poeta, diplomata e teleco-tequista Vinicius de Moraes numa tarde em que ambos (não ambos os Vinicius, como ficará provado mais tarde, mas ambos: eu e ele) tomávamos umas e outras no Bar Calypso, num desses crepúsculos vespertinos de Ipanema que já baixam pedindo um chope.
Estávamos lá “entornando”, quando chegou minha hora de subir para Petrópolis:- Poetinha, eu vou me mandar – disse eu. Ele suspirou, ante a perspectiva de ter de ficar sozinho e desejou boa viagem. Eu entrei no carro e subi para Petrópolis, onde cheguei certo de que nenhum carro passara pelo meu na estrada. No entanto, parei na Avenida 15 da cidade serrana, manobrei o carro e coloquei na vaga indo tomar mais um na Confeitaria Copacabana. Quando entrei e olhei para as mesas, vi que um camarada me saudava lá de dentro: era Vinicius de Moraes. Foi nessa tarde - repito – que eu descobri que Vinicus era, pelo menos dois. Está claro que podem haver mais de dois. Duvido até que as múltiplas atividades de Vinicius (reparem que seu nome já é no plural para enganar os trouxas) possam ser realizadas só por dois deles. Acredito mesmo que haja uma meia dúzia de Vinicius: um para poesia, um para diplomacia, outro para samba, um quarto para jornalista e o resto para mulher. Desses, os mais assoberbados talvez sejam os últimos. Eu acho, outrossim, que sou o único ao qual Vinicius (não sei qual deles) deu a pala de que eles são uma equipe e não um homem, por isso fico rindo dos coleguinhas que disputam o privilégio de noticiar o Vinicius certo na hora exata. Os jornais de ontem, por exemplo, estavam muito pitorescos sobre Vinicius (todos os Vinicius). Em Última Hora a confreirinha jornalista Teresa Cesário Alvim, num esforço de reportagem, dizia: “Vinicius de Moraes anda a todo vapor, de uns tempos para cá. Tomou pressão em Petrópolis e desceu a serra carregado de idéias, jorrando inspiração para todos os lados. “ (Coitada da Teresa, não sabe que há Vinicius pela aí tudo.) Já o coleguinha Jacinto de Thormes, no mesmo dia, na mesma UH e talvez escrevendo à mesma hora, dizia: “O Senhor Vinicius de Moraes está fazendo uma temporada de repouso na Clínica São Vicente.” De fato, há um dos Vinicius que está repousando, o que explica as notícias tão desencontradas de dois colunistas, no mesmo jornal, no mesmo dia. No mesmo dia, aliás, o Carlos Alberto escrevia na sua coluna: “O poeta Vinicius de Moraes, ontem de madrugada, conversando no Restaurante Fiorentina.” É verdade. Vinicius estava lá no Fiorentina, numa roda batendo papo. Dezenas de testemunhas podem provar o que o Carlos Alberto disse. Estava também tomando oxigênio, na Clínica São Vicente, estava em casa com amigos, compondo sambas ao som do violão de Baden Powell, estava no Cine Alvorada, assistindo a “Morangos Silvestres” (o porteiro me disse que o Vinicius já assistiu à fita quatro vezes, mas é mentira. Vários Vinicius ainda não viram). Como, minha senhora? A senhora não acredita que Vinicius seja uma porção? Azar o seu, dona. Um dia ainda se fará um programa de televisão com Vinicius ao violão, acompanhando outro Vinicius que canta, junto com um quarteto vocal de Vinicius. Sem vídeo-tape. Quem tem razão é Tia Zulmira, quando diz que, se Vinicius de Moraes fosse um só, não seria Vinicius de Moraes, seria Vinício de Moral.


1.Texto originalmente publicado na 4ª edição do livro Rosamundo e os outros, de Stanislaw Ponte Preta, editado pela Civilização Brasileira (1975)

2.Stanislaw Ponte Preta é um fantástico personagem criado pelo jornalista carioca Sérgio Porto [1923 – 1968]. Rosamundo e os outros é o terceiro título de uma série que ainda inclui Tia Zulmira e eu e Primo Altamirando e elas.

Fonte: nasescuridoes.blogspot.com

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