terça-feira, 20 de outubro de 2009

diadopoeta
                                                imagem by Enloucrescida

 

O POETA É PERIGOSO
Artur da Távola

A palavra é a melhor e mais imprecisa forma de representar o real. Nada é tão único, direto e simples quanto à palavra e nada tão pantanoso. O homem vive a dificuldade de aprisionar a palavra, para, só assim, descobrir o termo preciso. Essa luta só acaba quando, no esforço de aprisionar a palavra, ela o aprisiona. Esse jogo (Luta? Tarefa? Alegria? Catarse), o de aprisionar a palavra e ser aprisionado, fascina de tal modo que quem o empreende faz-se um apaixonado por ele. Este é o jogo do escritor; e também o do poeta. E ainda o do bom político Aprisionar a palavra que escapa, dela desejando ser vítima, amante, senhor e escravo.

Poetas e políticos possuem essa afinidade: a de descobrir a palavra, a de viver da palavra. Eles se tornam cúmplices da palavra no processo através do qual ela impera sobre eles, ao mesmo tempo em que precisa ser vencida por ambos. Pois é desse esforço bendito e maldito (porque sempre incompleto e insatisfatório) que nasce o poeta.

A poesia, porém, não pára na palavra. Ela é também - e sobretudo - a busca do sentido das coisas. E o que é o sentido das coisas? Este, aparece rapidamente em nossa mente e logo foge, escapa, nem sempre se torna claro para o homem. Este, porém, prefere chamar esse clarão fugidio de verdade. Mas é sempre errático e fugidio.

Eu perguntaria a vocês: é fácil saber o que é a vida? A morte? É claro saber o que é a liberdade? O que é a política? Não! Nós temos impressões, percepções, e há sempre algo a fugir no sentido das coisas. Aí está o poeta. O poeta é esse ser à margem dos homens, um tanto subversivo em relação aos comportamentos dos homens, que busca pilhar a lucidez fugidia. Enquanto os homens vivem atados às suas paixões, o poeta (que também tem as dele), guarda dentro de si um outro lado em permanente vigilância, em alerta de sensibilidade. Ele não tenta entender o sentido das coisas apenas; ele tenta - se me permitem a palavra - sentir o sentido das coisas. E nesse momento o sentido das coisas não é apenas algo fluido em sua inteligência mas uma vivência ou intuição presente sobretudo no órgão do sentimento.

O poeta vê o verso, vê o outro lado. Por isso, ele é perigoso. Por isso, ele é grandioso. Por isso, ele ameaça. A história dos homens conta inúmeros casos de poeta assassinados, degredados, exilados, perseguidos, porque eles dominam esse mistério, essa deusa: a palavra. Dominam, não nos esqueçamos, porque são dominados por ela. E ao dominá-la e serem, por ela dominados, conseguem ver mais e melhor, ver além, por dentro. Ver o verso das coisas é ser profeta.

Assim, mataram poetas nas revoluções, baniram poetas nas crises políticas. O poeta é perigoso, porque está sozinho, longe dos apetites do mundo, a trabalhar com a sensibilidade, tarefa subversiva porque oposta ao mundo de hoje, o da predominância do consumo, da máquina, do fazer, no qual a única ética é o êxito. Ele não se entrega às "verdades" das aparências; ele prefere ficar com o verso. Prefere ficar, como dizia Cruz e Souza: "entre raios, pedradas e metralhas, ficou gemendo mas ficou sonhando".

segunda-feira, 19 de outubro de 2009
vermeer_rendeira 
                                                                VERMEER
A RENDEIRA
Adriano Espínola
 
Na teia da manhã que se desvela
a rendeira compõe seu labirinto,
movendo sem saber e por instinto
a rede dos instantes numa tela
Ponto a ponto, paciente, tenta ela
traçar no branco linho mais distinto
a trama de um desenho tão sucinto
como a jornada humana se revela.

Em frente, o mar desfia a eternidade
noutra tela de espuma e esquecimento
enquanto, entrelaçado, o pensamento
costura sobre o sonho a realidade.

Em que perdida tela mais extrema
foi tecida a rendeira e este poema?


Adriano Espínola, poeta nascido em Fortaleza (CE) em 1952. É professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Ceará.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Edvard_Munch 
                                                                   Edvard Munch

“O ciúme é aquela dor que dá quando percebemos que a pessoa amada pode ser feliz sem a gente”
(Rubens Alves)

"Meu Senhor, livrai-me do ciúme! É um monstro de olhos verdes, que escarnece do próprio pasto que o alimenta. Quão felizardo é o enganado que, cônscio de o ser, não ama a sua infiel! Mas que torturas infernais padece o homem que, amando, duvida, e, suspeitando, adora." (William Shakespeare)

A suspeita e o ciúme são como venenos empregados na medicina: se pouco, salva; se muito, mata.
(Antonio Perez)

"Os ciumentos não precisam de motivo para ter ciúme. São ciumentos porque são. O ciúme é um monstro que a si mesmo se gera e de si mesmo nasce."
(William Shakespeare)

"De todas as enfermidades que acometem o espírito, o ciúme é aquela a qual tudo serve de alimento e nada serve de remédio."
(Michel de Montaigne)

"Para que um bom relacionamento continuar e seja agradável, é preciso não apenas suspeitar prudentemente como ocultar discretamente a suspeita."
(Stendhal)

"No banquete do amor, o ciúme é o saleiro, que ao querer verdadeiro empresta vivo sabor. Advirta-se porém ser erro temperar em demasia. O ciúme, por ser só sal um retrato, se posto demais no prato, não tempera, antes maltrata."
(Tirso de Molina)

"É próprio da condição do ciumento enxergar como sendo maiores e mais valiosas, aos olhos da amada, as qualidades do seu rival."
(Miguel de Cervantes)

"O ciúme da mulher, de quem se espera amor, é uma revelação agradável, ainda mesmo que valha pouco para a felicidade do coração."
(Camilo Castelo Branco)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Se essa votação lhe interessa, pressione o seu representante no Congresso Nacional.
Uma caravana de artistas e músicos desembarca dia 21 em Brasília. É quarta-feira que vem a votação na Câmara da PEC da Música, que dá imunidade tributária às gravações de canções e videoclipes. Autor do projeto, o deputado Otavio Leite (PSDB-RJ) prevê queda de 25% no preço de CDs: “Se passar, será um golpe na pirataria”.

Fonte: Jornal O Globo
14/10/2009, Coluna Negócios & cia

O QUE É O PEC

Depois de dois anos e diversas audiências públicas, a PEC 98/07 (Proposta de Emenda à Constituição) - que deve revolucionar os parâmetros do mercado fonográfico brasileiro - será votada na Câmara dos Deputados no dia 21. Elaborada pelo parlamentar Otavio Leite (PSDB-RJ), a proposta estabelece imunidade tributária para gravações de artistas brasileiros, com o objetivo de diminuir o impacto da pirataria e dos downloads ilegais.

Ou seja: caso a medida, conhecida como PEC da Música, seja aprovada, não haverá mais cobrança de impostos sobre a venda de suportes físicos (CDs e DVDs) e formatos digitais (telefonia móvel e na internet). As publicações de livros, jornais e revistas já contam com esse benefício.

O autor do projeto diz que a mudança poderá reduzir em 25% os preços desses produtos. Atualmente, discos e DVDs custam R$ 25 e R$ 40, respectivamente, em média.

"Acredito também que as empresas poderão vender 35% mais barato as músicas baixadas por telefonia, os ringtones. em que há incidência tributária elevada. Será possível proporcionar impulso e formalização do mercado na internet, porque há muita coisa feita de forma irregular", explica o deputado.

O parlamentar conta que a PEC não foi bem recebida pelos que representam no Congresso a Zona Franca de Manaus, no Amazonas, atualmente único estado que usufrui de isenção de impostos para o setor.

Para evitar resistências, Leite alterou a proposta: enquanto os outros estados ficarão isentos de ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias) e ISS (Imposto sobre Serviço), o Amazonas também será beneficiado com a isenção de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados).

"Existem apenas cinco fábricas de discos no Brasil e todas ficam em Manaus. Fizemos a ressalva para que o benefício nessa área da fabricação valha apenas para essa região."

Favorável ao projeto, o presidente da ABMI (Associação Brasileira de Música Independente). Roberto de Carvalho comenta que houve equívoco por parte dos parlamentares. "Eles temem, erroneamente, que a fabricação de CDs desloque-se para outras praças. Estão fazendo esse lobby contrário porque, graças à malha tributária absurda, os fabricantes de Manaus aproveitaram-se dos incentivos e também tornaram-se distribuidores. E não querem perder esse filé."

Carvalho ressalta ainda que a PEC pode acabar com o atraso do País em relação à música digital. "A venda de conteúdos musicais por telefone no Brasil é taxada em 30% como operação de telecomunicações Para quem produziu, não sobra nada."

Ao contrário de análises feitas por parcela da imprensa especializada, Carvalho não acredita na extinção do formato CD. "Essa é outra falácia, a maior mentira que alguém poderia dizer. No Japão, que tem o mercado digital mais desenvolvido do mundo, 70% do movimento financeiro de venda de música é feito através de CD e DVD. No Brasil, isso pula para perto de 90%."

PIRATARIA - Outro apoiador é o presidente da ABPD (Associação Brasileira dos Produtores de Discos), Paulo Rosa. "Em um ambiente onde imperam a pirataria de CDs e DVDs, e de alguns anos para cá aquela praticada através da internet, é mais que bem-vinda essa redução de custos fiscais, que irá beneficiar o setor que produz música, aquele que a comercializa e o consumidor final."

Engajado na defesa do projeto desde 2007, o cantor e compositor carioca Leoni enumera outro benefícios. "A PEC vai tirar da informalidade bandas pequenas que gravam discos, vendem em seus shows e não pagam impostos. Também dará à música, maior representante da arte brasileira no Exterior. o status que ela merece. O papel de jornal, por exemplo já tem isenção."

A lista de defensores do projeto na classe musical é extensa e inclui outros nomes como os sertanejos Zezé Di Camargo & Luciano, o Rei Roberto Carlos, o compositor Francis Hime e os cantores Sandra de Sá, Fagner e Roberto Frejat.

Fonte:
www.otavioleite.com.br/conteudo.asp?pec-da-musica-3600

rosas_g_037  


DESVENTURA
Cecília Meireles

Tu és como o rosto das rosas:
diferente em cada pétala.

Onde estava o teu perfume?
Ninguém soube.
Teu lábio sorriu para todos os ventos
e o mundo inteiro ficou feliz.

Eu, só eu, encontrei a gota de orvalho
que te alimentava,
como um segredo que cai do sonho.

Depois, abri as mãos, - e perdeu-se.

Agora, creio que vou morrer.

Leia mais Cecília Meireles >> AQUI

sábado, 10 de outubro de 2009
flordepessegueiro_Paulo_Henrique_Lopes_Rodrigues
                        Foto de Paulo Henrique Lopes Rodrigues

A FLOR DE PESSEGUEIRO
António Feijó

 
A melindrosa flor de pessegueiro
Deixei-a, como dádiva de amores,
A essa que tem o rosto feiticeiro
E os lábios cor das purpurinas flores.

E a tímida andorinha, de asas quietas,
Dei-a também como lembrança minha,
A essa que tem as sobrancelhas pretas,
Iguais às asas da andorinha.

No dia imediato a flor morria,
E a andorinha voava, entre esplendores,
Sobre a Grande Montana onde vivia
O Génio oculto qu preside às flores.

Mas nos seus lábios, como a flor abrindo,
Conserva a mesma carnação,
E não voaram, pelo azul fugindo
As asas negras dos seus olhos, não!

in Poesias Completas - Edições Caixotim
sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Foto e notícia recebi da Nara Françaclariceemazul

As pinturas da Esfinge
Uma mostra no Rio de Janeiro traz pela primeira
vez os quadros de Clarice Lispector – e uma biografia propõe novas explicações para os mistérios da escritora

A escritora Clarice Lispector comprazia-se em cultivar uma aura de mistério. Definia-se em frases como "sou tão misteriosa que não me entendo" ou "eu não decifrei a Esfinge, mas ela também não me decifrou". Seus romances talvez contenham elementos autobiográficos, mas indiretos e crípticos. Clarice não gostava de literatura confessional. É no aspecto biográfico (mais do que na inexistente qualidade artística) que reside o interesse de um pequeno e pouco conhecido conjunto de dezesseis pinturas sobre madeira realizadas por Clarice, que será exposto ao público pela primeira vez neste mês, no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Todos os quadros foram pintados em 1975 e ficaram guardados desde sua morte, em 1977, na Fundação Casa de Rui Barbosa. Testemunham um período especialmente difícil para a autora. Um ano antes, ela fora demitida do Jornal do Brasil, no qual escrevia crônicas semanais, e estava preocupada com sua situação financeira. Embora ainda não soubesse do câncer que a mataria dois anos depois, sua saúde já estava debilitada. Aos 54 anos, escritora consagrada, ela se dizia cansada da literatura e declarava que pretendia parar de escrever, talvez para sempre. Ao longo desse ano, pintou freneticamente. São obras abstratas, algumas sombrias, outras muito coloridas, todas com nomes trágicos: Medo, Explosão, Tentativa de Ser Alegre ou Caos da Metamorfose sem Sentido. Sobre Medo, escreveu que fora aconselhada a não olhar para o quadro, porque lhe fazia mal: "Eu conseguira pôr para fora de mim, quem sabe se magicamente, todo o medo-pânico de um ser no mundo". A pintora diletante supervalorizava sua produção – os borrões de Medo, afinal, só apavoram pela feiura. Mas um biógrafo da escritora acredita que os quadros tenham pistas para os traumas mais profundos e ocultos da autora de A Paixão Segundo G. H.

A relação de Clarice com a pintura é analisada em detalhes pelo americano Benjamin Moser em Why This World (Por que Esse Mundo?), biografia lançada em agosto nos Estados Unidos e na Inglaterra. Moser lembra que em dois romances – Água Viva, de 1973, e o póstumo Um Sopro de Vida – as personagens centrais são artistas plásticas, e há títulos de quadros que foram usados pela autora nas obras que pintou depois. Ele destaca que Clarice trabalhava seguindo com o pincel as nervuras da madeira. Assim, ao mesmo tempo em que cobria o quadro de tinta, ela ressaltava sua textura original. "É uma maneira de pintar oposta ao trompe-l’oeil, recurso que dá ao espectador a impressão de estar diante de um objeto que não existe. Ou seja, também nos quadros de Clarice existe a tensão entre real e inventado que marca sua produção literária", diz Moser.

Clarice já foi objeto de pelo menos três biografias no Brasil, mas Por que Esse Mundo?, que será lançada no país em novembro, traz algumas novidades interpretativas. Moser sustenta que a autora foi muito mais influenciada por sua origem judaica do que ela própria admitia. Os estudiosos brasileiros sempre acentuaram a marca do exílio na vida de Clarice, cuja família fugiu da Ucrânia para o Brasil, chegando aqui em 1922, pouco depois do nascimento da escritora. Mas o biógrafo americano acredita que ela nutria um misticismo ligado à tradição da cabala judaica, aspecto de sua formação cultural que ainda não teria sido suficientemente estudado no Brasil.

Na origem da família residiria, também, um detalhe trágico. Com evidências um tanto especulativas, Moser afirma que Mania, mãe de Clarice, foi estuprada por soldados russos, e que a paralisia progressiva que a levou à morte, em 1930, foi causada por uma sífilis contraída nessa violação. Essa afirmação ousada é baseada em duas circunstâncias. A primeira é histórica: nas perseguições a judeus na Ucrânia, os estupros eram comuns, e os casos de sífilis, muito frequentes. A segunda vem da ficção de Elisa Lispector, a irmã mais velha de Clarice. Moser fala de "uma estranha lacuna" em No Exílio, romance autobiográfico de Elisa. A autora revela que, em 1915, sua casa havia se transformado em refúgio de mulheres e crianças. No meio da noite, ouviram-se tiros, e sua mãe resolveu sair, sozinha, para ver o que estava acontecendo. "Ela decidiu salvar suas filhas e as outras pessoas que buscaram abrigo em nossa casa", escreveu Elisa, para depois contar que Mania voltou exausta e afundou-se, muda, numa cadeira. No livro Clarice, uma Vida que Se Conta, da pesquisadora da Universidade de São Paulo Nádia Gotlib, há uma nota de rodapé na qual a autora credita ao médico Henrique Rabin a hipótese da sífilis contraída num estupro. Ela diz, entretanto, que não há como confirmá-la.

É provável que nunca se saiba o que de fato aconteceu na Ucrânia, antes que a família partisse para o Brasil. A hipótese de que Mania tenha sido estuprada carrega consequências trágicas para Clarice: a futura escritora teria sido concebida justamente para livrar sua mãe da paralisia. Segundo crença difundida entre os ucranianos, a gravidez teria o poder de curar doenças nas mulheres. Se isso é verdade, o fracasso nessa missão marcaria Clarice pelo resto da vida. Numa crônica publicada em 1968 no Jornal do Brasil, ela comenta: "Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança. Mas eu, eu não me perdoo".

Marcelo Bortoloti

Veja a galeria de imagem
http://veja.abril.com.br/galeria-de-imagens/clarice-lispector-494795.shtml

Fonte:
http://veja.abril.com.br/020909/pinturas-esfinge-p-132.shtml

Jean-Baptiste Valadie_Lumiere_blanche
                                          Jean-Baptiste Valadie
AMOR
Maria Esther Maciel
 
Na véspera de ti
eu era pouca
e sem
sintaxe
eu era um quase
uma parte
sem outra
um hiato
de mim.

No agora de ti
aconteço
tecida em ponto
cheio
um texto
com entrelinhas
e recheio:
um preciso corpo
um bastante sim.
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