quarta-feira, 3 de setembro de 2008
amor_54

VIDA
José Antônio Gama de Souza

E se perdesse a eternidade, o tempo
Que aos meus olhos passa
No montanhês horizonte

E se perdesse a maviosidade, o canto
Que meu sentido capta
Do pássaro cantante

E se perdesse a velocidade, o vento
Que o meu rosto toca
Como acaricia o monte 

E se perdesse a passividade, o campo
Que meu corpo acolhe
Como se fosse amante

Ainda assim, seriam
O tempo, o canto, o vento e o campo
Básicos atores

Na teatral moldura deste instante...
Em que a vida
Que inspira o amor
Maior que tudo
É sempre o mais importante...


imagem: da internet

ajanela_Elizabeth_Snow
                      imagem: Elizabeth Snow

Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água.

[Às Vezes - Sophia de Mello Breyner Andresen]

arabesqueenbleu
                    imagem: Luiz Tumminelli

De tudo, ficaram três coisas:
a certeza de que ele estava sempre começando,
a certeza de que era preciso continuar
e a certeza de que seria interrompido antes de terminar.
Fazer da interrupção um caminho novo.
Fazer da queda um passo de dança,
do medo uma escada,
do sono uma ponte,
da procura um encontro."

[Fernando Sabino, in O Encontro Marcado, Ed Record, ed.68ª, p.145]

terça-feira, 2 de setembro de 2008

vinho_coracao 
  imagem: qvinho.com.br (com modificações)

Deveis estar sempre bêbado.

Nada mais conta.

Para não sentir a horrível perda de tempo que esmaga os nossos ombros e nos faz pender para a terra, deveis embebedar-vos sem tréguas.

Mas de quê?

De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embebedai-vos.

E se algumas vezes nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a bebedeira, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão: "são horas de vos embebedardes!"

Para não serdes os escravos martirizados do tempo, embebedai-vos sem cessar!

De vinho, de poesia, ou de virtude, à vossa escolha.

[Charles Baudelaire]

olhando_ceu
                                imagem: João Carlos Viegas

Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus.
Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta;
da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.

Fragmentos - de Os Dragões não Conhecem o Paraíso -  Caio Fernando Abreu

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

menino_sonhador_d     
                                                       Pintura de Paola Roma

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.

 
A incapacidade de ser verdadeiro - Carlos Drummond de Andrade
Do Livro: Histórias para o rei - Editora Record

sábado, 30 de agosto de 2008

 kima112
                                       imagem: Kim Anderson

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

[A princípio não te vi: não soube que ias comigo...  - Pablo Neruda]

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

olhando_ceu_2 
                                          imagem da internet

Algumas palavras se perdem
Quando o sonho invade
O território do factível.
Carrego no bolso
Vocábulos esféricos
De superfície instável
E essência vária.
O asfalto me observa
Com a mesma pretensão
Com a qual as crianças
Dão formas
às nuvens.
Ruas me atravessam
E desconhecem as asas
De minha alma:
O óbvio me perdeu
Pela ausência de sombras e pegadas.
Teu sorriso, entre nuvens,
Rege meu itinerário:
Traço que risco
De olhos cerrados e coração desnudo.
Talvez a realidade exija resgate
Pela peça essencial de sua engrenagem,
Mas não te preocupes,
Pois as palavras nascidas da alma
Escorrem das mãos da realidade
E não sabem descansar sob
Olhos desacreditados.
Por isso viajo sem pegadas,
Apenas nuvens, estrelas, teu sorriso
E a possibilidade do improvável
Suspenso pelas intangíveis
Cordas da liberdade.
O amanhã?
Que venha o amanhã
Com seu arsenal de cores e sabores.
Para ele criarei novas palavras
E tecerei novos sonhos.

[Anderson Christofoletti]

Related Posts with Thumbnails

Poética

Poesias

Poetas

Vídeos

A Voz aqui

A Poética dos Amigos

Pesquisar neste blog

Rádio

Arquivos