segunda-feira, 6 de outubro de 2008
foge_alguma_coisa  

DESCUIDADO
Ademir Antonio Bacca

tantas vezes abri a mala
no meio da rua
em busca de alguma coisa tua

uma fotografia
um bilhete
um objeto esquecido
ao acaso

mas,
descuidado,
toda vez
que abro a mala
no meio da rua
sempre me foge
alguma coisa
tua


do livro Grito por dentro das Palavras
imagem da internet, via Google

Cultura Nacional
Literatura Nacional Contemporânea
O Fazendeiro do Ar
Documentário sobre Carlos Drummond de Andrade
Filme de Fernando Sabino e David Neves - 1971
[Fonte]

Um dia do grande poeta de nosso tempo. A presença de Minass como fonte permanente de inspiração de sua poesia. Uma entrevista ao vivo que é um dos mais completos depoimentos já prestados sobre a sua vida e sua obra. Imagens raras com a esposa e filha Maria Julieta. [Fonte]

fenix
imagem da internet

Em plena efervescência do movimento mangue, nos idos de 1993, quase despercebido, um cantor pernambucano fazia as primeiras apresentações nos palcos do Recife. O cantor assinava então J. Fênix e estudava no Conservatório Pernambucano de Música, na época em que as atenções estavam voltadas para o maracatu cibernético. Seu inusitado registro vocal de contralto não se encaixava na nova cena musical recifense.

Em 1994 Fênix parte para o Rio onde continuou a estudar música com o Maestro Antonio Adolfo. Depois de uma apresentação na cidade carioca, teve a oportunidade de fazer um teste que lhe renderia o personagem principal do musical “Os Quatro Carreirinhas” dirigido por Wolf Maya, quando chamou a atenção da crítica e do público carioca em 1996. Com este trabalho Fênix entrosou-se no meio artístico e logo realizou seu primeiro show solo.

A trajetória de Fênix estava só começando. O cantor decidiu ir para Nova York e lá não perdeu a oportunidade de aprimorar seus conhecimentos musicais e artísticos. Lá conheceu Gerald Thomas e começou a cantar na noite Nova Iorquina. Trabalhou com Gerald Thomas na montagem de “O Cão Andaluz” (1998) inspirado na obra do escritor espanhol Garcia Lorca e voltou a trabalhar com Wolf Maya em 1999 no arrojado musical “Fênix e Stuart”. Ainda na época em que trabalhou com Wolf Maya, o produtor Guto Graça Melo – um dos mais respeitados e bem sucedidos da indústria fonográfica brasileira – chamou a atenção de que o mercado precisava conhecer Fênix.

Entre 2001 e 2004 registra de forma independente seus dois cds: “Eu, Causa e Efeito” e “Marfim”. O primeiro “Eu, Causa e Efeito” foi produzido por Jaime Alem, produtor e maestro de Maria Bethânia. As participações especiais ficaram a cargo de Ney Matogrosso, Naná Vasconcelos, Otto, Dominguinhos e o Maracatu Nação Pernambuco. [Fonte]

Assim como no disco de estréia, Eu, Causa e Efeito, em Marfim conta com vários músicos bem conhecidos: Marcos Susano, Totonho, Sacha Ambak, João Vianna (filho de Djavan), Ramiro Musoto, Carlos Malta, e composições inéditas de Zeca Baleiro e Totonho, entre outros. “Acho que isso se deve à qualidade. Eu a busco incessantemente, sou um tarado pela qualidade”, explica.

Dono de um timbre raro de voz, assumidamente andrógino (é comparado a Ney Matogrosso e Edson Cordeiro, sem os exageros do segundo, e com a elegância do primeiro), Fênix foi coberto de elogios pelo novo trabalho, mas sabe que ainda não foi além do status de cult, “Nos shows de lançamento, o teatro lota, sai bastante matérias na imprensa, maior badalação, depois acaba”, diz ele, revelando que este ano pretende lutar para conseguir uma maior projeção, mesmo que isso passe pelo paradoxalmente onipresente e invísivel jabá (dinheiro que as emissoras de rádio receberiam para tocar determinado artista). “Sem o rádio a gente não alcança o público. Minha música toca numa rádio lá em Goiás, noutra em Minas, não adianta. Pretendo chegar a um público mais amplo, estou fazendo um remix com Marcelinho da Lua e quero tocar no rádio. Mas como a coisa é na base da grana, vou investir no jabá”, detona.

Se dependesse do prestígio que desfruta no meio artístico, Fênix não precisaria apelar para esse detestável recurso. No show do disco anterior, no Recife, Ney Matogrosso que veio de Brasília para cantar apenas duas músicas com o amigo e voltar em seguida para a Capital do País, onde fazia temporada. Neste show, é a vez de Leo Gandelman, que faz um solo com a banda de Fênix, e toca em Chá de maçã, faixa de Marfim, de cuja gravação participou. [Fonte]

domingo, 5 de outubro de 2008

Love of Music - red rose
                                        imagem da internet

 

Decifra-me.
Se me queres,
tenta-me.
Há portas que estão
apenas aparentemente
fechadas. Abre-as.
Uma delas dá acesso a
uma sala e dentro dela
há um piano. Entra.
E toca-me.
Se teus dedos produzirem
música, terás
me aprendido.

 

[O Piano - Nálu Nogueira]

mulher_45
                                         imagem da internet


O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

[O mundo Estava no Rosto da Amada - Rainer Maria Rilke Tradução: Augusto de Campos]

sábado, 4 de outubro de 2008
estrelas_Al_Magnus
Imagem: Al Magnus

Chico Risada vendia amendoim pra ajudar os pais, que ganhavam pouco na fábrica, mas era o menino mais alegre da rua, talvez da cidade. Mesmo quando a venda do amendoim não ia bem ou era maltratado por um freguês nervoso, não parava de cantar, de estar sempre brincando. E se lhe perguntavam por que aquela tanta alegria, respondia com um sorriso que mostrava os dentes
cariados de menino pobre.
- Porque tenho um raio de Sol.
Os outros meninos não entendiam muito bem essa resposta e o Salustiano, cheio de bossa pra inventar coisas, chegava a dizer que certa madrugada o Chico Risada estava na praia esperando o Sol nascer.
- Vai ver que foi nessa madrugada que ele apanhou o raio de Sol.
Um dia o bairro acordou triste. No terreno abandonado onde os garotos jogavam pelada iam levantar um prédio de oitenta andares. Pra espantar a tristeza, que deixava muito menino chorando, Salustiano teve uma grande idéia:
- Vamos pedir emprestado o raio de Sol ao Chico Risada. Assim ninguém morre de tristeza, e ninguém morrendo de tristeza a gente arranja outro lugar pra pelada.
Chico Risada não emprestou o que os meninos queriam, mas deu uma lição que adiantou muito.
- Eu não posso emprestar o raio de Sol a vocês porque ele não está guardado num armário, numa gaveta.
- Então onde é que ele está? Você diz sempre que é alegre porque tem um raio de Sol. Nós queremos só um pouquinho dele.
- Vocês não entenderam direito o que eu quis dizer. Eu canto, eu estou sempre alegre... Mas não é porque tenho um raio de Sol me dando essa alegria. É ao contrário. Eu tenho um raio de Sol justamente porque vivo cantando, sempre alegre. Todos nós devemos ter esse raio de Sol dentro da gente. Eles querem ver a gente triste. Mas nós não damos confiança e vamos arranjar um lugar pra pelada. Nós temos um raio de Sol.

[O Menino Que Tinha Um Raio de Sol - Mário Lago]

Frith_William_Powell_The_Signal
                          Imagem: Frith William Powell


Houve um poema,
entre a alma e o universo.
Não há mais.
Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.
Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.

Houve um poema:
Parecia perfeito.
Cada palavra em seu lugar,
como as pétalas nas flores
e as tintas no arco-íris.
No centro, mensagem doce
E intransmitida jamais.

Houve um poema:
e era em mim que surgia, vagaroso.
Já não me lembro, e ainda me lembro.
As névoas da madrugada envolvem sua memória.
É uma tênue cinza.
O coral do horizonte é um rastro de sua cor.
Derradeiro passo.

Houve um poema.
Há esta saudade.
Esta lágrima e este orvalho - simultâneos -
que caem dos olhos e do céu.

[Houve um poema - Cecilia Meireles]

Charles_Courtney_Curran_Fair_Critics  
           Imagem: Charles Courtney Curran

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos…
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo…
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida…
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato…
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.
[Presença - Mario Quintana]
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