domingo, 29 de março de 2009
carlos_gomesfrancisco_petronio
                    Carlos Gomes                                        Francisco Petrônio

Música: Quem Sabe?
Intérprete: Francisco Petrônio
Composição: Carlos Gomes e Bittencourt Sampaio




Francisco Petrônio e Dilermano Reis
Uma Voz, Um Violão (1962)





Carlos Gomes ficou reconhecido internacionalmente como compositor de óperas. O que pouca gente sabe é que ele compôs a partir de um universo bastante diversificado, bem próprio de seu estilo, influências e contexto histórico. No seu repertório encontramos música sacra, modinhas, cantatas e operetas. Quando ouvimos suas modinhas nos lembramos de sua origem interiorana, das festas de salões em volta do piano, dos saraus lítero-musicais tão freqüentes no Rio e São Paulo do século XIX.

Nas modinhas e canções de Carlos Gomes encontramos um pouco do lirismo francês e muito dos tons humorísticos das canções italianas, sobretudo a forte presença do estilo verdiano, tão em voga no ensino musical da época. Da sua primeira fase, ainda como estudante de música, destacamos os títulos mais famosos: Hino acadêmico e Quem Sabe? ambas de 1859. A grande parte dos textos musicados por Carlos Gomes eram de caráter romântico, realçando o estilo melodramático, típico das árias de salão.[1]

"Quem sabe", com letra de Bittencourt Sampaio, uma de suas mais famosas composições até hoje, gravada com sucesso por Francisco Petrônio e Dilermando Reis, tendo sido incluída na trilha sonora da telenovela "Senhora", produzida pela TV Globo em 1975 e inspirada no romance homônimo de José de Alencar. A mesma modinha foi interpretada por Ney Matogrosso no show "Pescador de Pérolas", na década de 1980, ao lado de Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Rafael Rabelo.[2]

Quem sabe? (modinha, 1859)
de Carlos Gomes e Bittencourt Sampaio

Tão longe de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Tão longe de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
Quisera, saber agora
Quisera, saber agora
Se esqueceste, se esqueceste
Se esqueceste o juramento.
Quem sabe se és constante
Se ainda é meu teu pensamento
Minh’alma toda devora
Dá a saudade dá a saudade agro tormento
Tão longe de mim distante
Onde irá onde irá teu pensamento
Quisera saber agora
Se esqueceste se esqueceste o juramento.


Fontes:
[1]  cifrantiga3.blogspot.com
[2] dicionariompb.com.br

stanislaw_ponte_preta   Vinicius de Moraes 
              Stanislaw Ponte Preta                              Vinicius de Moraes


OS VINICIUS DE MORAES
STANISLAW PONTE PRETA


Eu confesso a vocês que descobri o segredo do coleguinha jornalista, poeta, diplomata e teleco-tequista Vinicius de Moraes numa tarde em que ambos (não ambos os Vinicius, como ficará provado mais tarde, mas ambos: eu e ele) tomávamos umas e outras no Bar Calypso, num desses crepúsculos vespertinos de Ipanema que já baixam pedindo um chope.
Estávamos lá “entornando”, quando chegou minha hora de subir para Petrópolis:- Poetinha, eu vou me mandar – disse eu. Ele suspirou, ante a perspectiva de ter de ficar sozinho e desejou boa viagem. Eu entrei no carro e subi para Petrópolis, onde cheguei certo de que nenhum carro passara pelo meu na estrada. No entanto, parei na Avenida 15 da cidade serrana, manobrei o carro e coloquei na vaga indo tomar mais um na Confeitaria Copacabana. Quando entrei e olhei para as mesas, vi que um camarada me saudava lá de dentro: era Vinicius de Moraes. Foi nessa tarde - repito – que eu descobri que Vinicus era, pelo menos dois. Está claro que podem haver mais de dois. Duvido até que as múltiplas atividades de Vinicius (reparem que seu nome já é no plural para enganar os trouxas) possam ser realizadas só por dois deles. Acredito mesmo que haja uma meia dúzia de Vinicius: um para poesia, um para diplomacia, outro para samba, um quarto para jornalista e o resto para mulher. Desses, os mais assoberbados talvez sejam os últimos. Eu acho, outrossim, que sou o único ao qual Vinicius (não sei qual deles) deu a pala de que eles são uma equipe e não um homem, por isso fico rindo dos coleguinhas que disputam o privilégio de noticiar o Vinicius certo na hora exata. Os jornais de ontem, por exemplo, estavam muito pitorescos sobre Vinicius (todos os Vinicius). Em Última Hora a confreirinha jornalista Teresa Cesário Alvim, num esforço de reportagem, dizia: “Vinicius de Moraes anda a todo vapor, de uns tempos para cá. Tomou pressão em Petrópolis e desceu a serra carregado de idéias, jorrando inspiração para todos os lados. “ (Coitada da Teresa, não sabe que há Vinicius pela aí tudo.) Já o coleguinha Jacinto de Thormes, no mesmo dia, na mesma UH e talvez escrevendo à mesma hora, dizia: “O Senhor Vinicius de Moraes está fazendo uma temporada de repouso na Clínica São Vicente.” De fato, há um dos Vinicius que está repousando, o que explica as notícias tão desencontradas de dois colunistas, no mesmo jornal, no mesmo dia. No mesmo dia, aliás, o Carlos Alberto escrevia na sua coluna: “O poeta Vinicius de Moraes, ontem de madrugada, conversando no Restaurante Fiorentina.” É verdade. Vinicius estava lá no Fiorentina, numa roda batendo papo. Dezenas de testemunhas podem provar o que o Carlos Alberto disse. Estava também tomando oxigênio, na Clínica São Vicente, estava em casa com amigos, compondo sambas ao som do violão de Baden Powell, estava no Cine Alvorada, assistindo a “Morangos Silvestres” (o porteiro me disse que o Vinicius já assistiu à fita quatro vezes, mas é mentira. Vários Vinicius ainda não viram). Como, minha senhora? A senhora não acredita que Vinicius seja uma porção? Azar o seu, dona. Um dia ainda se fará um programa de televisão com Vinicius ao violão, acompanhando outro Vinicius que canta, junto com um quarteto vocal de Vinicius. Sem vídeo-tape. Quem tem razão é Tia Zulmira, quando diz que, se Vinicius de Moraes fosse um só, não seria Vinicius de Moraes, seria Vinício de Moral.


1.Texto originalmente publicado na 4ª edição do livro Rosamundo e os outros, de Stanislaw Ponte Preta, editado pela Civilização Brasileira (1975)

2.Stanislaw Ponte Preta é um fantástico personagem criado pelo jornalista carioca Sérgio Porto [1923 – 1968]. Rosamundo e os outros é o terceiro título de uma série que ainda inclui Tia Zulmira e eu e Primo Altamirando e elas.

Fonte: nasescuridoes.blogspot.com

sábado, 28 de março de 2009

 

Hermeto Pascoal e Elis Regina no Festival de Montreux
Música: Asa Branca.
Composição: Luís Gonzaga e Humberto Teixeira

Quando oiei a terra ardendo
Qual a fogueira de São João
Eu preguntei a Deus do céu,ai
Por que tamanha judiação
Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de prantação
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
"Intonce" eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Hoje longe muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão
Quando o verde dos teus óio
Se espanhar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração

 serenidade
                                                            Imagem da Internet

VEM, SERENIDADE!
Raul de Carvalho

Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla umidade das bocas.

Vem, serenidade!
faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.

 Michael_and_Inessa_Garmash_en_vogue
                                              Michael and Inessa Garmash

QUIETAÇÃO
VINICIUS DE MORAES
Rio de Janeiro, 1933

No espaço claro e longo
O silêncio é como uma penetração de olhares calmos...
Eu sinto tudo pousado dentro da noite
E chega até mim um lamento contínuo de árvores curvas.
Como desesperados de melancolia
Uivam na estrada cães cheios de lua.
O silêncio pesado que desce
Curva todas as coisas religiosamente
E o murmúrio que sobe é como uma oração da noite...

Eu penso em ti.
Minha boca cicia longamente o teu nome
E eu busco sentir no ar o aroma morno da tua carne.
Vejo-te ainda na visão que te precisou no espaço
Ouvindo de olhos dolentes as palavras de amor que eu te dizia
Fora do tempo, fora da vida, na cessação suprema do instante
Ouvindo, junta de mim, a angústia apaixonada da minha voz
Num desfalecimento.
Pelo espaço claro e longo
Vibra a luz branca das estrelas.
Nem uma aragem, tudo parado, tudo silêncio
Tudo imensamente repousado.
E eu cheio de tristeza, sozinho, parado
Pensando em ti.

sexta-feira, 27 de março de 2009

 
Palavra (En)Cantada é um documentário dirigido por Helena Solberg, que faz uma viagem na história do cancioneiro brasileiro com um olhar para a relação entre poesia e música, costurando depoimentos de grandes nomes da nossa cultura, performances musicais e surpreendente pesquisa de imagens.
"Palavra (En)cantada" conta com a participação de Adriana Calcanhotto, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, BNegão, Chico Buarque, Ferréz, Jorge Mautner, José Celso Martinez Correa, José Miguel Wisnik, Lirinha (Cordel do Fogo Encantado), Lenine, Luiz Tatit, Maria Bethânia, Martinho da Vila, Paulo César Pinheiro, Tom Zé e Zélia Duncan. Imagens de arquivo resgatam momentos sublimes de Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Tom Jobim.


rainer_maria_rilke 
                                        Rainer Maria Rilke

A impressionante história do nascimento das Elegias de Duíno, como nos conta Emmanuel Carneiro Leão na introdução do livro Sonetos a Orfeu e Elegias de Duíno (Editora Vozes, Petrópolis, 1989):
”As Elegias operam a explosão de seu próprio nascimento. Nasceram de uma experiência extra-ordinária do extra-ordinário: um acontecimento inesperado, violento, perigoso, um verdadeiro furacão de poesia se abatera sobre o espírito do poeta. Em janeiro de 1912 Rilke passava o inverno no Castelo de Duíno numa falésia à beira do Adriático. Tinha recebido uma carta de negócios. A resposta exigia uma decisão grave de mudanças e transformação. Saiu para pensar na resposta ao ar livre. Formava-se uma tempestade e o vento começou a soprar forte. A resposta o absorvia. Andava de um lado para o outro, a uns 70 metros da água, lutando por uma decisão. De repente parou. Era como se do meio da tempestade uma voz lhe retirasse da boca e inscrevesse no barulho do vento as palavras: Se gritasse, quem das legiões de anjos escutaria o grito?
Castelo_de_Duino 
                                      Castelo de Duíno
Rilke se recolheu todo à escuta do que estava por vir. Sentindo a presença da poesia, anotou as palavras e alguns outros versos que ainda se formaram sem nenhuma participação sua. Voltou para o Castelo e naquela mesma noite a primeira elegia estava pronta. A segunda seguiu alguns dias depois, e no final do inverno os primeiros versos de todas as outras lhe foram dados da mesma maneira. Alguns fragmentos apareceram ainda em viagens a Toledo, Ronda e Paris e logo tudo silenciou. Rilke sabia da importância do que lhe sucedera e esperou por 10 anos o retorno do Inesperado.
[...] Espera retomar o fluxo interrompido tão logo encontre um abrigo adequado, como o Castelo de Duíno destruído na [Primeira] guerra [Mundial]. Passando pelo país do Valais, chega a Sierre e descobre o lugar ideal num pequeno castelo do século XIII: Muzot. Um cartaz anunciava venda ou aluguel. Seu amigo, Walter Reinhart, o adquire e põe à disposição do poeta que lá se instala no início do verão de 1921.
No retiro de Muzot Rilke espera. Mas era uma espera criadora. Lia e traduzia Paul Valéry [...] Na noite de 1º de Janeiro de 1922 chegou uma carta de Gertrude Oukama Knoop. A mãe relata a doença e morte da filha. Era um sinal. Na passagem do ano o Anjo da morte falava de transformação: uma jovem com estranho poder de sedução, uma pessoa extra-ordinária, feita para a dança, a música e as artes, deixara a juventude para entrar na morte e reintegrar-se ao todo. Rilke é tomado pelo canto criador de Orfeu. [...] Prepara-se a fúria de uma nova tempestade semelhante à que o surpreendera dez anos antes na falésia de Duíno. [...]Após uma angústia de dez anos, a poesia retomou a força dos elementos e em nova tempestade abriu caminho para a liberdade. Em cinco dias de total dedicação, de 7 a 11 de fevereiro, todo o conjunto das Elegias estava pronto.”
E para quem tiver curiosidade: o Castelo de Duíno (foto) fica no Trieste e pertence à família von Thurn und Taxis. Reconstruído, é a residência particular da Princesa von Thurn und Taxis, e encontra-se em parte aberto à visitação pública.


Fonte: paraserzen.blogspirit.com

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                               Imagem: Michael and Inessa Garmash


SUGESTÃO
CECÍLIA MEIRELES

Sede assim - qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurrante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.

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