terça-feira, 22 de setembro de 2009

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EU SEI O QUE É PRIMAVERA
Clarice Lispector
5 de outubro de 1968

Bem sei que é uma vaidade dizer em plena primavera que eu sei o que é primavera. Às vezes porém sou tão humilde que os outros me chamam a atenção. É uma humildade feita de gratidão talvez excessiva, é feita de um eu de criança, de susto também de criança. Mas, desta vez, quando percebi que estava humilde demais com a alegria que me era dada pela vinda da primavera chuvosa, dessa vez apossei-me do que é meu e dos outros.
Sei o que é primavera porque sinto um perfume de pólen no ar, que talvez seja o meu próprio pólen, sinto estremecimentos à toa quando um passarinho canta, e sinto que sem saber eu estou reformulando a vida. Porque estou viva. A primavera torturante, límpida e mortal que o diga, ela que me encontra cada ano tão pronta para recebê-la. Bem sei que é uma perturbação de sentidos. Mas, por que não ficar tonta? Aceito esta minha cabeça à chuva tremeluzente da primavera, aceito que eu existo, aceito que os outros existam porque é direito deles e porque sem eles eu morreria, aceito a possibilidade do grande Outro existir apesar de eu ter rezado pelo mínimo e não me ter sido dado.
Sinto que viver é inevitável. Posso na primavera ficar horas sentada fumando, apenas sendo. Ser às vezes sangra. Mas não há como não sangrar pois é no sangue que sinto a primavera. Dói. A primavera me dá coisas. Dá do que viver. E sinto que um dia na primavera é que vou morrer. De amor pungente e coração enfraquecido.


In A descoberta do mundo - Crônicas. Ed. Rocco, 1999

Para baixar uma imagem ou todas, entre no álbum do Picasa, clicando na imagem.

orquidea_Bert_Bomb                                                                Foto: Bert Bomb

“aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.”

Cecília Meireles

“Há uma primavera em cada vida: é preciso cantá-la assim florida, pois se Deus nos deu voz, foi para cantar!

Florbela Espanca

“Depois do inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e cores.”

“Anda no ar um perfumado cheiro
a terra revolvida;
o vento emudeceu;
o sol desceu;
a primavera vai chegar, florida.”

Miguel Torga

Olhos postos na terra, tu virás
no ritmo da própria primavera,
e como as flores e os animais
abrirás as mãos de quem te espera.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Yosemite_National_Park_Bert_Bomb
                                                             Foto de Bert Bomb

BUCÓLICA
Miguel Torga
 
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;


De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.




©Miguel Torga
Escrito em S. Martinho de Anta, 30 de Abril de 1937
Publicado em “Diário I”, Coimbra, 1941
E em “Poesia Completa”, 2000
Editora: Dom Quixote
Portugal

domingo, 20 de setembro de 2009

magmah_avp 
MAGMAH, é o pseudônimo da gaúcha SARA REIS, que estreia na Voz da Poesia. Ela se apresenta assim:

“Meu eu lírico é vulcânico, irracional e vive noutro mundo, uma espécie de universo paralelo. É apaixonado, intenso, egocêntrico e voraz.
Daí o pseudônimo, inspirado no “magma” que é rocha ígnea localizada no interior da terra, que está em constante estado de ebulição e só é lançada à superfície pela atividade de um vulcão (sempre iminente) e de cuja solidificação se formam pedras preciosas.

Mas eu própria não passo de uma menina, nascida nos pagos gaúchos, que ama poesia e gosta do exercício lírico como distração e desabafo.”

SAIBA MAIS >> AQUI

ou cole e copie no seu navegador:
www.avozdapoesia.com.br/magmah

florbela_espanca 
Florbela de Alma Conceição Espanca

Nasceu: 8/12/1894
Vila Viçosa - Portugal
Suicidou-se em 8/12/1930 em Matosinhos - Portugal

Fernando Pessoa, em um poema datilografado e não datado de nome "À memória de Florbela Espanca", descreve-a como "«alma sonhadora / Irmã gêmea da minha!»".

Florbela Espanca estudou em Évora, onde concluiu em 1917 o curso liceu, matriculando-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. É por essa altura que publica as suas primeiras poesias. Tendo casado várias vezes e tendo sido em todas elas infeliz, começou a consumir estupefacientes. Só depois da sua morte é que a poetiza viria a ser conhecida do grande público, tendo contribuído para isso a publicação de Charneca em Flor (1930) pelo professor italiano Guido Batelli.

SAIBA MAIS >> AQUI

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www.avozdapoesia.com.br/florbelaespanca

sábado, 19 de setembro de 2009

Claude_Theberge_Amour
                                            Claude Theberge

I – GOSTO DE TI
Florbela Espanca

Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira!

E eu, que era neste mundo uma vencida,
Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol!
- Águia real, apontas-me a subida!

©Florbela Espanca
In Charneca em flor, 1931

+ FLORBELA ESPANCA >> AQUI

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

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NARDÉLIO FERNANDES LUZ
(Fantasma_MG)

O escritor e poeta Nardélio Fernandes Luz é autodidata. Nasceu em 06/01, na pequena Pratinha, no interior de Minas Gerais, mas é radicado em Uberlândia desde a adolescência. Exerceu as profissões de funileiro e soldador industrial até 1998, quando aos 31 anos mergulhou em um rio raso e fraturou a cervical, tendo como sequela uma lesão medular irreversível, que o deixou tetraplégico. Descobriu o amor pela literatura ainda na infância e, embora tenha escrito inúmeras cartas e outros textos na juventude sonhadora, levava uma vida corrida e só tomou verdadeiramente o gosto pela escrita, com o tempo proporcionado pela paralisia.

Para saber mais do poeta clique aqui > A VOZ DA POESIA

ou copie e cole no seu navegador:
http://www.avozdapoesia.com.br/nardeliofernandesluz

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