quinta-feira, 5 de maio de 2011

OS MEUS DEDOS ERRANTES
Eugénio de Sá

Os meus dedos, amor, dedos errantes
Úteis partes de mim, mas que eram teus
Sem o altar do teu corpo são ateus
Não se enternecem a orar como antes

São as extremidades destas mãos cativas
Da saudade que as tuas lhes deixaram;
Os meus dedos nos teus, como brincaram
Entrelaçados eles e nossas vidas

É triste que hoje os saiba acarinhados
Por outros que talvez não te amem tanto
Enquanto estes meus sofrem, ignorados

Mas sensações perduram entretanto;
Nestas mãos que te amaram sem pecado
Ficaram as memórias do encanto!

0-2

Sobre o autor:

Nasceu em Lisboa, em 1945.
A poesia entrou na sua vida em 1968, trazida num livrinho que recebeu das mãos de José Saramago, então colaborador do Jornal A Capital, onde iniciou a atividade de comunicador.
Eugénio de Sá é acadêmico AVPB e membro da APP.

terça-feira, 3 de maio de 2011

SEU NOME
Composição: Vander Lee
Intérprete: Luiza Possi

Quando essa boca disser o seu nome, venha voando
Mesmo que a boca só diga seu nome de vez em quando

Posso enxergar no seu rosto um dia tão claro e luminoso
Quero provar desse gosto ainda tão raro e misterioso do amor...

Quero que você me dê o que tiver de bom pra dar
Ficar junto de você é como ouvir o som do mar
Se você não vem me amar é maré cheia, amor
Ter você é ver o sol deitado na areia

Quando quiser entrar e encontrar o trinco trancado
Saiba que meu coração é um barraco de zinco todo cuidado

Não traga a tempestade depois que o sol se pôr
Nem venha com piedade porque piedade não é amor

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Fonte do texto:
Cheiro de flor quando ri

segunda-feira, 2 de maio de 2011

OLHAR FORASTEIRO
de Helena Sut

Desejo descobrir a intenção
Perdida entre os véus da noite
Com os olhos das estrelas anciãs
Que velam a nossa escuridão
Enquanto olhares forasteiros
Encontram os nossos mistérios.

Desejo caminhar no céu
Desarmar a armadilha do esquecimento
Derramada sobre o espelho do mar
Na busca pelo barqueiro
E reencontrar, suspenso no horizonte,
O cais entre as correntes de estórias.

Desejo ser o olhar
A noite, o dia, o mistério,
O prazer de ser apenas a vida
Forasteira e plena de perguntas
E encontrar nos caminhos de Sasso
As pedras da minha identidade.

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Imagem: pintura de  John Waterhouse

Sobre a autora

Helena Sut nasceu no Rio de Janeiro em 19 de novembro de 1969 e reside em Curitiba. Autora dos livros: Sonhos e Cicatrizes, 2001, Beatriz Navegante e Confissões de uma Barriga, 2002, Alfinetes de Lapela,2003, Todas as Ovelhas são Pardas, 2003. Apresentou livros na 48ª Feira do Livro de Porto Alegre (2002) e na Bienal do Livro do Rio de Janeiro (2003). Participou da coletânea de poesias Próximas Palavras, lançada em julho de 2002 em Curitiba, além de outras coletâneas no Rio de Janeiro e Brasília.

sábado, 30 de abril de 2011

DESPEDIDAS
Affonso Romano de Sant'Anna

Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.

Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo,
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices,
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!

Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.

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Leia mais do autor > A Voz da Poesia
Imagem da Internet, via Google, sem ident. do autor

quinta-feira, 28 de abril de 2011


POEMA DA ROSA
Poesia: Berthold Brecht 

Tradução: Augusto Boal      
Música: Jards Macalé
Voz: Cida Moreira
Álbum: Soledade
Gravadora Joia Moderna (2015)


Há uma rosa linda no meio do meu jardim
Dessa rosa cuido eu, quem cuidará de mim?
De manhã desabrochou, a tarde foi escolhida
pra de noite ser levada de presente à minha amiga
Feliz de quem possui uma rosa em seu jardim
A minha amiga com certeza pensa agora só em mim
Quando sopra o vento frio e o inverno gela o jardim
Eu tenho calor em casa e fico quietinho assim
Feliz de quem tem o seu teto pra ajudar a sua amiga
a fugir do vento ruim que deixa gelado o jardim.

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Fonte do vídeo
quarta-feira, 27 de abril de 2011

A história do “Quase” está contada tim-tim por tim-tim no Blog do Emílio. Jornalista que investiga – e desvenda – falsas autorias. 
Veríssimo publicou no Jornal Zero Hora uma crônica para esclarecer que não é o autor desse texto. (leia ao final do post)

image
Sarah Westphal


QUASE
Autora: Sarah Westphal

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.

É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.


Fonte: >> DAQUI

Texto de LFV publicado no jornal ZH em 24/03/2005

Presque
Luis Fernando Veríssimo

A internet é uma maravilha, a internet é um horror. Não sei como a Humanidade pôde viver tanto tempo sem o e-mail e o Google, não sei o que será da nossa privacidade e da nossa sanidade quando só soubermos conviver nesse cyberuniverso assustador. O mais admirável da internet é que tudo posto nos seus circuitos acaba tendo o mesmo valor, seja receita de bolo ou ensaio filosófico, já que o meio e o acesso ao meio são absolutamente iguais. O mais terrível é que tudo acaba tendo a mesma neutralidade moral, seja pregação inspiradora ou pregação racista — ou receita de bomba — já que a linguagem técnica é a mesma e a promiscuidade das mensagens é incontrolável. Não temos nem escolha entre o admirável e o terrível, pois acima de qualquer outra coisa a internet, hoje, é inevitável.

Uma das incomodações menores da internet, além das repetidas manifestações que recebo de uma inquietante preocupação, em algum lugar, com o tamanho do meu pênis, é o texto com autor falso, ou o falso texto de autor verdadeiro. Ainda não entendi o recado ou a estranha lógica de quem inventa um texto e põe na internet com o nome de outro, mas o fato é que os ares estão cheios de atribuições mentirosas ou duvidosas. Já li vários textos com assinaturas improváveis na internet, inclusive vários meus que nunca assinei, ou assinaria. Um, que circulou bastante, comparava duplas sertanejas com drogas e aconselhava o leitor a evitar qualquer cantor saído de Goiânia, o que me valeu muita correspondência indignada. Outro era sobre uma dor de barriga desastrosa, que muitos acharam nojento ou, pior, sensacional. O incômodo, além dos eventuais xingamentos, é só a obrigação de saber o que responder em casos como o da senhora que declarou que odiava tudo que eu escrevia até ler, na internet, um texto meu que adorara, e que, claro, não era meu. Agradeci, modestamente. Admiradora nova a gente não rejeita, mesmo quando não merece.

O texto que encantara a senhora se chamava "Quase" e é, mesmo, muito bom. Tenho sido elogiadíssimo pelo "Quase". Pessoas me agradecem por ter escrito o "Quase". Algumas dizem que o "Quase" mudou suas vidas. Uma turma de formandos me convidou para ser seu patrono e na última página do caro catálogo da formatura, como uma homenagem a mim, lá estava, inteiro, o "Quase". Não tive coragem de desiludir a garotada. Na internet, tudo se torna verdade até prova em contrário e como na internet a prova em contrário é impossível, fazer o quê?

Eu gostaria de encontrar o verdadeiro autor do "Quase" para agradecer a glória emprestada e para lhe dar um recado. No Salão do Livro de Paris, na semana passada, ganhei da autora um volume de textos e versos brasileiros muito bem traduzidos para o francês, com uma surpresa: eu estava entre Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e outros escolhidos, adivinha com que texto. Em francês ficou Presque.

Fonte >> DAQUI

segunda-feira, 25 de abril de 2011


No teu poema
Letra e música: José Luís Tinoco
Intérprete: Paula Oliveira e Bernardo Moreira


No teu poema
existe um verso em branco e sem medida,
um corpo que respira, um céu aberto,
janela debruçada para a vida.
No teu poema existe a dor calada lá no fundo,
o passo da coragem em casa escura
e, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite,
o riso e a voz refeita à luz do dia,
a festa da Senhora da Agonia
e o cansaço
do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe o grito e o eco da metralha,
a dor que sei de cor mas não recito
e os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
existe um cantochão alentejano,
a rua e o pregão de uma varina
e um barco assoprado a todo o pano.
Existe um rio
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro.

Fonte do vídeo
 
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