quarta-feira, 6 de março de 2019
POEMA NATURAL
Adalgisa Nery

Abro os olhos, não vi nada
Fecho os olhos, já vi tudo.
O meu mundo é muito grande
E tudo que penso acontece.
Aquela nuvem lá em cima?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Ontem com aquele calor
Eu subi, me condensei
E, se o calor aumentar, choverá e cairei.
Abro os olhos, vejo um mar,
Fecho os olhos e já sei.
Aquela alga boiando, à procura de uma pedra?
Eu estou lá,
Ela sou eu.
Cansei do fundo do mar, subi, me desamparei.
Quando a maré baixar, na areia secarei,
Mais tarde em pó tomarei.
Abro os olhos novamente
E vejo a grande montanha,
Fecho os olhos e comento:
Aquela pedra dormindo, parada dentro do tempo,
Recebendo sol e chuva, desmanchando-se ao vento?
Eu estou lá,
Ela sou eu.

barrinha_03 
In: Poemas,1937
Arte: Richard S. Johnson

barrinha_03
segunda-feira, 4 de março de 2019


UM VERSO E UM CHORINHO
Autor: Hardy Guedes Alcoforado Filho
Intérpretes: Luciane Antunes e Hardy Guedes


Se a minha dor coubesse inteira no meu verso
e o meu verso por inteiro num chorinho
tenho certeza que meu coração poeta
ia cantar ao lado de um cavaquinho
pra dividir com o parceiro instrumento
minha tristeza, minhas mágoas, os meus ais
juntando assim pelos acordes e compassos de um lamento
as suas cordas e as minhas cordas vocais

Não existe abrigo melhor que um ombro amigo
diante do desencanto, diante do desalento ou de uma desilusão
é nele que a gente volta e meia se debruça, se abraça e soluça
e poe pra fora a dor que mora no coração

E meu coração tem sido muito machucado
só eu que sei tudo o que ele tem passado
o amor tem me maltrado, vivo só e sem carinho
porisso ando a procura de um verso e um chorinho
que chorar junto é melhor que chorar sozinho
sei também que o cavaquinho há de devolver minha calma
vai se aninhar no meu peito e por no colo a minha alma
e por no colo a minha alma
e por no colo...


sábado, 2 de março de 2019
MAR DE MENINA
Lya Luft


Havia um mar,
e ali brotava uma ilha
povoada de lobos e de pensamentos.
Havia um fundo escuro e belo
onde os náufragos dançavam com sereias.
Havia ansiedade e abraço.
Havia âncora e vaguidão.

Brinquei com peixes e anjos,
fui menina e fui rainha,
acompanhada e largada,
sempre a meia altura
do chão.

A vida um barco, remos ou ventos,
tudo real e tudo
ilusão.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhHY9u40NUJKBSmyKItL70ZrJx-y5w_QKmHssdse5wiuuPlHEmqZEVGU92J92FgtsXxPdoahUqDypdtvS_yJFiQRieneOT1ILxh69mP9wwJOV-gmyYjVbb_P12r-B1D1H3ElJQcbqL4HeMn/?imgmax=800
In: Para não dizer adeus, 2005
Arte: David Dubnitskiy
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhHY9u40NUJKBSmyKItL70ZrJx-y5w_QKmHssdse5wiuuPlHEmqZEVGU92J92FgtsXxPdoahUqDypdtvS_yJFiQRieneOT1ILxh69mP9wwJOV-gmyYjVbb_P12r-B1D1H3ElJQcbqL4HeMn/?imgmax=800
sexta-feira, 1 de março de 2019

P DE PALAVRA E PEDRA
Ieda Estergilda de Abreu

 Palavras às vezes pesam como pedras
ferem a boca como pedra que se mastiga.
Agudas, acertam rápidas como pedras
dirigidas
esfriam como pedras frias na boca
ressentida
pensam e pedram como pedras no caminho.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiZSTmZsMnJhcgOI5oWDLMsTRqGsZBLByu11SmfQAN6gV7r5SEbQZlVH8QFKEP4jdOlFk__AvJJdobsSj53Yam59PWWbdO7wkMRZzLPs8DRGvf1225QhEMV7f3GtGF02aLRUiGr6LobRonA/?imgmax=800
In A Véspera do Grito
Editora Com-Arte, São Paulo, 2001

Image: Smooth River Pebble
SOBRE A AUTORA: Ieda Estergilda de Abreu nasceu em Fortaleza, Ceará, a 26 de maio de 1943. Formada em  Jornalismo e Direito, é assessora editorial da Editora Ática. Publicou os livros: Mais um livro de poemas, Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 1970; Apostilas Poéticas, edição da autora, São Paulo, 1980; e Grãos - poemas de lembrar a infância, Massao Ohno Editor, São Paulo, 1985.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019


Abismo de Rosas
Música: Américo Jacomino
Letra: José Fortuna
Intérprete: Francisco Petrônio


Ao te encontrar assim eu sei quanto tu és infeliz
Chego a sofrer também por lembrar o quanto eu já te quis
A minha mão te dei para te salvar do abismo
Mas foi tudo em vão, pois desprezaste o meu amor.

És flor do mal que o tempo desfolhou um céu azul, nublado
Este é o abismo de rosa, vulto a viver do pecado
Cedo mulher, porém, perdeste a paz porque te faltou carinho
E o sonho azul de um doce lar, mas é tarde demais para voltar.

Não, não quero ver-te, eu devo esquecer-te, a minha dor será maior
Se eu ver os lábios teus outra boca beijar, teu nome recorda
No jardim da vida, rosa uma flor que secou e por ti também meu coração murchou.

barrinha_9
terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

POEMA
Carlos Pena Filho


Senhora de muito espanto,
vestindo coisas longínquas
e alguns farrapos de sono,

eu vim para te dizer
que inutilmente contemplo
na planície de teus olhos
o incêndio do meu orgulho.

Senhora de muito espanto,
sentada além do crepúsculo
e perfeitamente alheia
a realejos e manhãs.

Eu vim para te mostrar
que se inaugurou um abismo
vertical e indefinido
que vai do meu lábio arguto
ao chumbo do teu vestido.

Senhora de muito espanto
e alguns farrapos de sono,
onde o céu é coisa gasta
que ao meu gesto se confunde.

Um dia perdi teu corpo
nas cores do mapa-múndi.

In: Os Melhores Poemas de Carlos Pena Filho, 2000
Ed. Global, 4ª ed., São Paulo.

Arte: Alan Maley (British)


SOBRE O AUTOR: Carlos Souto Pena Filho (Recife, 17 de maio de 1929 — Recife, 1 de julho de 1960) foi um advogado, jornalista e poeta brasileiro, considerado um dos mais importantes poetas pernambucanos da segunda metade do século XX depois de João Cabral de Melo Neto. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, em frente à qual hoje se encontra o busto do poeta. Morto num acidente de automóvel aos 30 anos. (Fonte: Wikipédia)
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
Especial para Cláudia Diniz


Sabir - Erimos



DOIS CORAÇÕES
Autores: Andre Sperling - Ronaldo Bastos
Intérprete: Nana Caymmi


De que é feito o amor?
Dizem que o amor é paz
O que o amor me deu
Ninguém vai me tirar
O meu amor só crê
Nas visões que o amor me dá
Se uniu dois corações
Não vai mais separar

Uniu dois mundos em vidas tão separadas
Juntou caminhos, mas separou as estradas

Cadê o amor, cadê?
Sinto que ele vai chegar
Posso morrer de amor
Ou por amor calar
O meu amor só crê
Nas visões que o amor me dá
Se uniu dois corações
Não vai mais separar

Fonte do vídeo
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