
SONETO DE INSPIRAÇÃO
Vinícius de Moraes
Como um homem e nem como um mendigo
Amo-te como se ama todo o bem
Que o grande mal da vida traz consigo.
De amar, nem pela glória do perigo
Que me vem de te amar, que te amo; digo
Antes que por te amar não sou ninguém.
Pela infinita inércia que me trouxe
A culpa é de te amar — soubesse eu ver
Que sou triste demais para esta vida
E que és pura demais para sofrer.

In Novos poemas, 1938
A FLOR DO SONHO
Florbela Espanca
A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.
Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...
Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...
Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa de minh′alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...
© FLORBELA ESPANCA
In Livro de Mágoas, 1919
Imagem: Anna Homchik
SONETO DO AMOR COMO UM RIO
Vinicius de Moraes
Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.
Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.
Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo
E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.
In Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
in Livro de Sonetos
In Poesia completa e prosa: "A lua de Montevidéu"
Imagem da internet via Google, sem identificação de autoria
SONETO DAS ALTURAS
Lêdo Ivo
As minhas esquivanças vão no vento
alto do céu, para um lugar sombrio
onde me punge o descontentamento
que no mar não deságua, nem no rio.
Às mudanças me fio, sempre atento
ao que muda e perece, e ardente e frio,
e novamente ardente é no momento
em que luz o desejo, poldro em cio.
Meu corpo nada quer, mas a minh'alma
em fogos de amplidão deseja tudo
o que ultrapassa o humano entendimento.
E embora nada atinja, não se acalma
e, sendo alma, transpõe meu corpo mudo,
e aos céus pede o inefável e não o vento.
© Lêdo Ivo
In Acontecimento do soneto, 1948
Imagem: foto de Flávio Cruvinel Brandão
SABOR DE VIDA
Aládia Pereira de Almeida
Eu amo a vida pelo que é a vida,
pela razão mais simples de viver,
sem me importar se árida é a lida,
se há mais dias de dor que de prazer.
Eu amo a vida mesmo na incerteza
do dia em que ela me abandonará;
sem pesar de deixar tanta beleza,
sem pensar, lá no Além, como será.
A vida é boa, é só saber vivê-la,
não desejar brilhar qual uma estrela,
nem também, como um verme se arrastar.
Saber chorar, se a dor nos atormenta,
sorrir, quando a alegria se apresenta,
compreender, esquecer e perdoar.
Imagem: Dimitri Danish (gondola reflections)
Sobre a autora:
Nasceu em Petrópolis - RJ, em 7/11/1936. Fez seu primeiro soneto aos 15 anos. Publicou os livros “Sonhos Azuis”, “Brumas da Tarde”, “Sereno Crepúsculo”, “É Noite, Afinal!”, todos de magníficos sonetos e outros poemas e o livro de crônicas “O Canto da Cambaxirra”. Com Doris Gelli produziu o volume “Serenata Imperial”. Integrante de várias academias e sociedades de letras do país, venceu concursos de poesia com primeiras colocações, tornando-se admirada e festejada como sonetista. Recebeu a honraria de Patrona Imortal da Academia Poética da E. M. Vila Felipe. Faleceu em 9 de dezembro de 2003. (Fonte >> daqui)
PSIQUE
Carlos Alberto de Mello
Um pedaço de mim corteja a lua,
outro procura pôr os pés no chão.
Enquanto aquele vaga pela rua,
este não perde nunca a direção.
Um lado pensa, julga, conceitua,
o outro se perde sempre na emoção.
Uma parte se veste, a outra está nua;
uma escreve discurso, a outra canção.
A metade que fala não escuta.
A que escuta não sabe o que dizer.
Eu inteiro sou parte da disputa,
e não sei o que vai acontecer:
Se sentamos na mesa com cicuta
ou se aprendemos a nos conhecer...
Carlos Alberto de Mello é carioca morador de Botafogo. Possui poemas publicados nos livros VIDA (2001) e CANTO DE RUA (1981). Ambos com edição esgotada. Escreveu também um livro voltado ao público infanto-juvenil (DESCOBRINDO O BRASIL) sobre mamíferos brasileiros ameaçados de extinção (veja mais no link (http://descobrindoobrasil.no.comunidades.net/). É funcionário público federal, com curso de pós-graduação em Letras na UERJ.
POST COITUM ANIMAL TRISTE
Fernando Guimarães
Em ti o poema, o amplo tecido da água ou a forma
do segredo. Outrora conheceste a margem abandonada
do desejo, a sua extensão e principias a entregar
os vasos alongados para receberes as mãos das chuvas.
Apagaram-se junto dos teus olhos as praias, as árvores
que se ergueram um dia sobre as estradas romanas,
o vestígio dos últimos peregrinos, aves nuas
que já desceram, cansadas, pelo interior do teu peito.
Uma voz, no silêncio calmo das águas, esquece
a mentira das primeiras colheitas, onde os nossos gestos
perderam os sorrisos ou o orvalho que os cerca.
Serenamente, começaram a fechar-se os sonhos de Deus
no interior de novos frutos e, abandonado, fico
junto do teu corpo, onde principia a sombra deste poema.
In Poesias Completas
Imagem da Internet, by Google
ASCENSÃO DO POETA
Alphonsus de Guimaraens
O poeta deve ter dentro da alma estelada
Uma deusa que o embale e acarinhe e adormeça:
É a ilusão que lhe vem aureolar a cabeça,
Suavizando-lhe a dor com os seus dedos de fada.
Quer surja a aurora, quer por entre as sombras desça
A noite, haja o clamor da vida, ou a paz sagrada
Da morte, — ela que é a fonte, o bem, a bem-amada,
Dá que a palma estival do sonho resplandesça.
E o mundo, que é o sinistro ergástulo de treva,
Transforma-se na irial mansão donde se eleva
A prece que há de um dia aos pés de Deus chegar...
E aos astros de tal modo o Poeta ascende em calma,
Que o céu fica menor do que o azul da sua alma,
E nem cabe no céu a luz do seu olhar...
Imagem: pintura de Jim Warren
SONETO MUSICAL
Dora Brisa
Música tem o tamanho do mar,
O cheiro de sopa ao anoitecer,
O brilho do olhar,
O formato de uma nuvem ao amanhecer.
Música tem, do crepúsculo, a cor,
Do silêncio, o acorde melodioso,
Da Mãe Terra, o sabor,
Da vida, o toque harmonioso.
Música precisa dizer mais,
Aquém ou além,
Sempre ou jamais.
Se alma não contém,
Não é música, não é nada,
Nem sombra de ninguém.
Leia mais Dora Brisa >> AQUI
Imagem da Internet, by Google, sem id. de autoria
SONETO DE CONTRIÇÃO
Vinícius de Moraes
Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.
Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.
Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...
E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.
Rio de Janeiro, 1938
in Novos Poemas
in Antologia Poética
in Livro de Sonetos
in Poesia completa e prosa: "A saudade do cotidiano"
Fonte: www.viniciusdemoraes.com.br
Imagens da internet, by Google
SONETO DE AMOR COMO UM RIO
Vinicius de Moraes
Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.
Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.
Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo
E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.
Montevidéu, 1959
in Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
in Livro de Sonetos
in Poesia completa e prosa: "A lua de Montevidéu"
Salvador Dali
O TEMPO
Deus pede estrita conta do meu tempo,
é forçoso do tempo já dar conta;
mas como dar sem tempo tanta conta,
eu que gastei sem conta tanto tempo?
Para ter minha conta feita a tempo,
dado me foi bem tempo e não foi conta.
Não quis sobrando tempo fazer conta,
quero hoje fazer conta e falta tempo.
Oh! vós que tendes tempo sem ter conta,
não gasteis esse tempo em passatempo:
cuidai enquanto é tempo em fazer conta.
Mas, oh! Se os que contam com seu tempo
fizessem desse tempo alguma conta,
não choravam como eu o não ter tempo.
Carl Larsson
Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça
em mim mesma ecoar uma estranha canção,
o som era confuso e tênue mas foi indo
e de súbito encheu-me o frio coração...
Depois tornou-se um hino ardente, e prosseguindo
dia a dia, a crescer, de força e de emoção,
todo o meu ser vibrou naquele canto infindo
como junco dobrado ao sopro do tufão.
Na floresta vagava esparsa melodia.
Um frêmito de luz, de vida e de alegria
fazia rescender o jasmineiro em flor.
E na terra fremente, e na amplidão profunda
e em minhalma a tremer, invencível, fecunda,
palpitava a canção vitoriosa do amor!
<><><><>
Arlete Marques
GRITO DE ALMA
Rui de Noronha
Vem de séculos, alma, essa orgulhosa casta,
repudiando a dor, tripudiando a lei.
Num gesto de altivez que em onda leva e arrasta
inteiras gerações de amaldiçoada grei.
Ir procurar, Amor, nessa altivez madrasta,
ou gesto de carinho ou de brandura, eu sei?
Ao tigre dos juncais, de uma crueza vasta,
quem há que roube a presa? Aponta-me e eu irei!
Cruel destino o meu, que ao meu caminho trouxe,
na fulgurante luz do teu olhar tão doce,
a mágoa minha, eterna, a minha eterna dor.
Vai, segue o teu destino! A onda quer-te e passa.
Vai com ela cantar o orgulho de tua raça,
que eu ficarei cantando o nosso eterno amor.
SOBRE O AUTOR:
Embora sonetista, "a crítica", conforme escreveu J. G. de Araújo Jorge -"o considera um dos precursores da moderna poesia em sua pátria".
Publicou apenas um livro, a que deu o simples nome de "Sonetos'.
imagem da internet
O POETA PEDE AO SEU AMOR QUE LHE ESCREVA
Federico Garcia Lorca
Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.
(tradução: William Agel de Melo)
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