terça-feira, 29 de março de 2011

“o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...”



Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

Quem sabe o valor exato de uma vida?

Sei que há uma vida, e que apagam essa vida — não sei é quem apaga

Mas sei que de cada vida que passa há um universo em mim.


Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

SONETO DAS ALTURAS
Lêdo Ivo

As minhas esquivanças vão no vento
alto do céu, para um lugar sombrio
onde me punge o descontentamento
que no mar não deságua, nem no rio.

Às mudanças me fio, sempre atento
ao que muda e perece, e ardente e frio,
e novamente ardente é no momento
em que luz o desejo, poldro em cio.

Meu corpo nada quer, mas a minh'alma
em fogos de amplidão deseja tudo
o que ultrapassa o humano entendimento.

E embora nada atinja, não se acalma
e, sendo alma, transpõe meu corpo mudo,
e aos céus pede o inefável e não o vento.

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© Lêdo Ivo
In Acontecimento do soneto, 1948

Imagem: foto de Flávio Cruvinel Brandão

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sábado, 26 de março de 2011

REPOUSO
Adalgisa Nery

Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito amada.

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©Adalgisa Nery
In As Fronteiras da Quarta Dimensão, 1951

sexta-feira, 25 de março de 2011

Nefelibata
Que, ou pessoa que vive nas nuvens, cujo espírito vagueia num mundo ideal. 
Diz-se de literato sonhador que se serve de uma linguagem de conotações imponderáveis, puramente sugestiva.
Nome dado a escritores, sobretudo poetas, de certa fase do movimento simbolista (no Brasil e em Portugal), como sinônimo de decadente. (Dicionário Aurélio)

NEFELIBATAS
Raquel Naveira

Os poetas simbolistas eram chamados de “nefelibatas”. Essa palavra tem origem no mito greco-romano de “Nefele”, nuvem mágica à qual Júpiter deu a forma da deusa Juno para enganar e punir Ixião.

Ixião foi rei dos lápitas, na Tessália. Após ter esposado Dia, filha do rei Deioneu, recusou ao soberano os ricos presentes que lhe havia prometido e acabou por matá-lo, lançando-o num fosso cheio de brasas. Culpado de perjúrio e sacrilégio por ter matado um parente, Ixião despertou o horror e o desprezo de todos. Júpiter, comovido com suas lamentações, levou-o ao Olimpo, serviu-lhe néctar e ambrosia e conferiu-lhe imortalidade. Mas Ixião, traidor por natureza, tentou seduzir Juno, esposa de Júpiter. Júpiter então criou uma nuvem com a forma da deusa. Ixião uniu-se a essa nuvem, dando origem aos Centauros. Pensando nessa história surpreendente de uma nuvem-mulher, escrevi este poema:

Nefele, nuvem mágica
Em forma de mulher,
Nem era mulher,
Mas gerou os centauros
Que cavalgaram loucos
Pelos campos.
Nefele nem era mulher,
Era nuvem de água e gelo,
Envolta em névoa.
Nefele,
Vago por realidades inefáveis,
Nebulosas;
Meus emblemas são a Via Láctea,
O véu da noiva,
A estrela polar,
A neve.
Oculto-me numa nuvem,
A nuvem é meu disfarce,
Sou a própria nuvem
Vista pela outra face.
Alma de poeta,
À cata de símbolos,
Nefelibata.

Dizem que o poeta vive nas nuvens ou trancafiado numa “torre de marfim”; que, dominado por um suposto ideal, não dá atenção aos fatos do cotidiano nem às lições da experiência. O poeta pode parecer distraído, desatento, mas, na verdade, ele está concentrado em coisas que ninguém observa ou dá valor, a não ser ele próprio. Esforça-se para apreender o impalpável, vive em busca do símbolo, que é o sinal luminoso duma complexa realidade espiritual, com a qual ele se comunica. É assim que o poeta pode se tornar porta-voz de multidões inteiras: verbalizando o que os outros não conseguem captar.

Sou mulher, meio nuvem, meio Nefele. Cultivo o Vago, o Oculto, o Mistério, a Ilusão, a Solidão que me permitem sondar além das aparências do concreto tangível, num mundo de névoas e idéias.

Raquel Naveira é escritora, poeta, Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo.

 

Fonte do texto: Linguagem Viva – Ano XX – n. 245 – Janeiro de 2010

   3D Smiles (142)

Se você estiver procurando algo na vida que seja justo, lembre-se do sutiã: oprime os grandes, protege os pequenos e levanta os caídos.

@jsoaresreal José Eugênio Soares

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