sexta-feira, 19 de julho de 2013

arvore_coracao

AS LETRAS
Fagundes Varela

Na tênue casca de verde arbusto
Gravei teu nome, depois parti;
Foram-se os anos, foram-se os meses,
Foram-se os dias, acho-me aqui.
Mas ai! O arbusto se fez tão alto,
Teu nome erguendo que não mais vi!
E nessas letras que aos céus subiam
Meus belos sonhos de amor perdi!

separador13

As Letras
Fagundes Varela
Fonte:
www.avozdapoesia.com.br/fagundesvarela

Imagem:
(modificada)
Foto original: Marcos Sá Corrêa

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Richard S. Johnson44


TALVEZ QUE SEJA A BRISA
Fernando Pessoa


Talvez que seja a brisa
Que ronda o fim da estrada,
Talvez seja o silêncio,
Talvez não seja nada...

Que coisa é que na tarde
Me entristece sem ser?
Sinto como se houvesse
Um mal que acontecer.

Mas sinto o mal que vem
Como se já passasse...
Que coisa é que faz isto
Sentir-se e recordar-se?

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Fernando Pessoa na Voz da Poesia

Imagem: Richard S. Johnson

segunda-feira, 10 de junho de 2013

POEMA QUIETO
Flora Figueiredo


Deixe que o silêncio discorra por nós
e ache as respostas.
Que nos beije o peito,
que nos coce as costas
e nos dê o direito de calar o tempo.
Deixe que ele cubra o momento
e se distenda leve
como um lençol de renda;
que seja arguto o bastante
para impedir o instante de ser breve,
Deixe que o silêncio nos proteja.
Pra que ninguém escute,
nada se revele
e possamos trocar as nossas peles
sem que a censura veja.

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© FLORA FIGUEIREDO
In Calçada de Verão, 1989
Fonte:
A Voz da Poesia

Imagem: Freydoon Rassouli

sábado, 8 de junho de 2013
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Presente da Simone Enloucrescida para o Dia dos Namorados!

Para imprimir:

1. clique na imagem para abrir em tamanho original;
2. copie e cole no Word;
3. ajuste para o tamanho que lhe agradar;
4. imprima.

Dicas:

use impressora jato de tinta e papel VERGÊ ou papel AP 60g.

Se for imprimir em papel comum a sugestão é que seja plastificado depois.

 

Arte by Enlou

O CIÚME
Guilherme de Almeida


Minha melhor lembrança é esse instante no qual,
pela primeira vez, me entrou pela retina
tua silhueta provocante e fina
como um punhal.
Depois, passaste a ser unicamente aquela
que a gente se habitua a achar apenas bela
e que é quase banal.

E agora que te tenho em minhas mãos, e sei
que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos
e os teus sentidos são cinco brinquedos
com que brinquei;
agora que não mais me és inédita; agora
que compreendo que, tal como eu te vira outrora,
nunca mais te verei;

agora que, de ti, por muito que me dês,
já não me podes dar a impressão que me deste,
a primeira impressão que me fizeste;
— louco, talvez,
tenho ciúmes de quem não te conhece ainda
e, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda,
pela primeira vez!

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© Guilherme de Almeida
In Poemas escolhidos, 1931
Imagem: Agaphya Belaja

Fonte: A Voz da Poesia

segunda-feira, 27 de maio de 2013
ALEXEY SLUSAR3

ÁGUA
Francisco Alvim


Falar de ti
é falar de tudo o que passa
no alto dos ventos
na luz das acácias
é esquecer os caminhos
apagar o enredo
é pensar as formas do branco
como teu corpo numa praia
branda e azul
tua pele não retém as horas
escorres, liquida
sonora

flor13

Francisco Alvim

In Exemplar Proceder, 1974
Imagem: Alexey Slusar

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Daniel F. Gerhartz

NO AMANHECER DE TI
Mário Domingos

No amanhecer de ti cabem
todas as janelas
porque és a dimensão
onde as viagens são possíveis
e deixas uma sombra
de castelo encantado
na meia luz das salas
onde o teu corpo passa
da-me a tua mão
e veste-me de ti
quero partir sem medo
quero partir sem mágoa
na estrada dos teus olhos
onde as pedras são de água

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© Mário Domingos
In O despertar dos verbos, 2011

Imagem: Daniel F. Gerhartz

domingo, 5 de maio de 2013

image


A UM TI QUE EU INVENTEI
Antonio Gedeão

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e ouça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de louça
que apenas com o pensar te pudesses partir.

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© Antonio Gedeão
In Teatro Do Mundo, 1958
Imagem: Anna Razumovskaya

Mais do autor:
A VOZ DA POESIA

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