sexta-feira, 24 de outubro de 2008

 Boulders_on_Bear_Cliff 
                          imagem: Charles Courtney Curran


Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o Sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

 

[Eu queria ser o mar - Florbela Espanca
do Livro de Mágoas]

4_diegorivera
                       imagem: Diego Rivera


Tem sempre presente, que a pele se enruga,
que o cabelo se torna branco,
que os dias se convertem em anos,
mas o mais importante não muda!

Tua força interior e tuas convicções não têm idade.
Teu espírito é o espanador de qualquer teia de aranha.

Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida.
Atrás de cada triunfo, há outro desafio.

Enquanto estiveres vivo, sente-te vivo.
Se sentes saudades do que fazias, torna a fazê-lo.
Não vivas de fotografias amareladas.
Continua, apesar de todos esperarem que abandones.
Não deixes que se enferruje o ferro que há em você.
Faz com que em lugar de pena, te respeitem.

Quando pelos anos não consigas correr, trota.
Quando não possas trotar, caminha.
Quando não possas caminhar, usa bengala.
Mas nunca te detenhas!

[Nunca te detenhas!  - Madre Teresa de Calcutá]

Desire
Arte: Jonhaton Earl Bowser      

DÁDIVA
Lilian Maial

  
Quisera ofertar-te
o vôo dos pássaros,
o momento do nascimento,
o segundo antes do beijo,
o sonho que precede o adormecer.
Quisera entregar-te
os olhos baços,
o arrependimento,
o leite de cada seio,
o pôr-do-sol e o amanhecer.
Quisera dar-te
as quatro estações,
as cerimoniosas fases da lua,
a Vênus de Milus inteiramente nua,
a neve caindo ao alvorecer.
Quisera doar-me a ti por inteiro,
pela eternidade do instante,
colher-te os frutos,
semear-te os versos
e cantar-te o amor
[que sinto].
Quisera, apenas quisera,
acompanhar-te, em silêncio, pela vida,
calar as vozes que perturbam teu sono,
deitar-me à tua sombra
de frondoso tronco.
Quisera fazer-te brisa e flor do campo
e deixar que despertasses
com meu nome nos lábios
– única palavra em teu vernáculo –
a me sorrir,
presente.

Dádiva - Lilian Maial
I Antologia Poética A Voz da Poesia, pg. 27

ma_Warren_Mobile_Home
                                        imagem: Jim Warren


Meu caro João Cabral de Mello Neto,
não é por mal,
mas você disse uma vez que poesia é construção,
trabalho, artesanato puro,
que o poema pode ser feito
como uma ponte, um muro,
como uma casa, a base de um projeto...
O Poeta seria
um arquiteto.

Desculpe, meu irmão,
mas não é não.

Você negou a inspiração.
Meu Deus, que heresia!
Como poderia
haver poesia então?

Poesia é graça,
transe interior,
revelação,
algo do coração, sentimental,
sem hora, sem razão aparente
para chegar,

como alguém que bate à sua porta, uma estranha,
u ma indigente, sem lar,
que você levava em si sem se aperceber,
e, surpreendentemente,
se põe a falar de repente
de você
para você.

E explicar, para que?
O poeta, irmão, é um Ser que pensa
porque sente,
e a emoção - a matéria-prima do seu verso...
A poesia - misto de imagem, ritmo, harmonia,
vivência, imaginação,
prazer ou sofrimento,
toma forma e se conforma
no pensamento...
(Como se imaginar um poeta sem sentimento
ante o seu Universo?)

No coração de um poeta
a poesia
- violino
divino –
é um inexplicável solo;
e em sua forma, em sua essência
como um cristal
se cristaliza
e todo em luz se irradia.
Mas em sua imaculada beleza a transparência
desconhece as leis da cristalografia.

Quanta vez, entre surpreso e atônito,
feliz depois do que escreveu,
o poeta é como um mergulhador que desceu
fundo
em seu mar,
em seu mundo...

Mas para se achar
se perdeu...

A inspiração
que você nega,
todo artista a conhece, ou consigo
a carrega.
Proust a comparou a uma decolagem,
uma espécie de ascensão
que o poeta faz de si mesmo,
de suas íntimas pistas...

Ao descortinar a sua paisagem
do alto, em surpreendentes vista,
cada poeta é um avião.

Desculpe, João Cabral, mas poesia
não é apenas construção,
(pensar assim seria fácil
demais).

O poeta não põe palavra em cima
de palavra,
verso em cima
de verso,
como um pedreiro
põe um tijolo
em cima de outro tijolo
no muro que faz.

Se isso fosse verdade
a gente poderia abrir uma escola,
uma faculdade,
para formar poetas, como engenheiros
ou bacharéis,
e dar diplomas e anéis
a esse poeta-doutor,
ao poeta-bacharel,
o que poderia por palavras no papel
falar da vida ou do amor,
bater nas teclas, seguro,
mas nunca decifrar a beleza e o mistério
de tudo o que nos cerca,
ou ser uma espécie de Nostradamus
antevendo o futuro.

Afinal
estou certo ou errado?
Será que digo um disparate?
Mas o poeta, esse ser predestinado,
não é um vate?

Ah, meu caro João Cabral de Mello Neto,
se o poeta fosse um arquiteto,
pense bem,
o poema não seria
um gesto, uma asa,
um olhar, uma vela
sobre o mar,
mas uma casa,
bela, como você diz,
mas uma casa vazia...

E uma casa vazia, meu irmão,
é menos que uma tumba...
Nela ao menos há uma flor, um nome, uma data,
uma lembrança,
uma saudade presente,
um farrapo de história
que permanece na memória
de alguém,
sombra, ou sonho de amor.

Não basta saber construir a casa, caro poeta.
A casa vazia,
é preciso povoá-la com vida

que se agita, e canta, e chora, e ri,
e é tristeza, paixão,
alegria.

Poesia
não é palavra apenas, - construída
é algo sem explicação
dentro, e acima de nós;

uma flor que de repente se entreabre
e se balança,
na ponta de um ramo ao sopro do vento,
e tem alma, e tem voz,
tem sentimento,
e é luz, perfume, imagem,
misteriosa e singular linguagem
secreta,
desconhecida,
humana ou divina
premonição da vida
no coração
do Poeta.


Carta ao Poeta João Cabral de Mello Neto
(Conversa Sobre Poesia)
de JG de Araujo Jorge
in "Tempo Será " 1a ed. 1986


[Fonte]

Canção do exílio 
Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em  cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho, à noite –
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá. 

De Primeiros cantos (1847)

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