quarta-feira, 30 de março de 2011

SEGUE O TEU DESTINO
Ricardo Reis/Fernando Pessoa

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

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1-7-1916
In Odes de Ricardo Reis / Fernando Pessoa

terça-feira, 29 de março de 2011

“o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...”



Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

Quem sabe o valor exato de uma vida?

Sei que há uma vida, e que apagam essa vida — não sei é quem apaga

Mas sei que de cada vida que passa há um universo em mim.


Álvaro de Campos / Fernando Pessoa

SONETO DAS ALTURAS
Lêdo Ivo

As minhas esquivanças vão no vento
alto do céu, para um lugar sombrio
onde me punge o descontentamento
que no mar não deságua, nem no rio.

Às mudanças me fio, sempre atento
ao que muda e perece, e ardente e frio,
e novamente ardente é no momento
em que luz o desejo, poldro em cio.

Meu corpo nada quer, mas a minh'alma
em fogos de amplidão deseja tudo
o que ultrapassa o humano entendimento.

E embora nada atinja, não se acalma
e, sendo alma, transpõe meu corpo mudo,
e aos céus pede o inefável e não o vento.

4

© Lêdo Ivo
In Acontecimento do soneto, 1948

Imagem: foto de Flávio Cruvinel Brandão

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sábado, 26 de março de 2011

REPOUSO
Adalgisa Nery

Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito amada.

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©Adalgisa Nery
In As Fronteiras da Quarta Dimensão, 1951

sexta-feira, 25 de março de 2011

Nefelibata
Que, ou pessoa que vive nas nuvens, cujo espírito vagueia num mundo ideal. 
Diz-se de literato sonhador que se serve de uma linguagem de conotações imponderáveis, puramente sugestiva.
Nome dado a escritores, sobretudo poetas, de certa fase do movimento simbolista (no Brasil e em Portugal), como sinônimo de decadente. (Dicionário Aurélio)

NEFELIBATAS
Raquel Naveira

Os poetas simbolistas eram chamados de “nefelibatas”. Essa palavra tem origem no mito greco-romano de “Nefele”, nuvem mágica à qual Júpiter deu a forma da deusa Juno para enganar e punir Ixião.

Ixião foi rei dos lápitas, na Tessália. Após ter esposado Dia, filha do rei Deioneu, recusou ao soberano os ricos presentes que lhe havia prometido e acabou por matá-lo, lançando-o num fosso cheio de brasas. Culpado de perjúrio e sacrilégio por ter matado um parente, Ixião despertou o horror e o desprezo de todos. Júpiter, comovido com suas lamentações, levou-o ao Olimpo, serviu-lhe néctar e ambrosia e conferiu-lhe imortalidade. Mas Ixião, traidor por natureza, tentou seduzir Juno, esposa de Júpiter. Júpiter então criou uma nuvem com a forma da deusa. Ixião uniu-se a essa nuvem, dando origem aos Centauros. Pensando nessa história surpreendente de uma nuvem-mulher, escrevi este poema:

Nefele, nuvem mágica
Em forma de mulher,
Nem era mulher,
Mas gerou os centauros
Que cavalgaram loucos
Pelos campos.
Nefele nem era mulher,
Era nuvem de água e gelo,
Envolta em névoa.
Nefele,
Vago por realidades inefáveis,
Nebulosas;
Meus emblemas são a Via Láctea,
O véu da noiva,
A estrela polar,
A neve.
Oculto-me numa nuvem,
A nuvem é meu disfarce,
Sou a própria nuvem
Vista pela outra face.
Alma de poeta,
À cata de símbolos,
Nefelibata.

Dizem que o poeta vive nas nuvens ou trancafiado numa “torre de marfim”; que, dominado por um suposto ideal, não dá atenção aos fatos do cotidiano nem às lições da experiência. O poeta pode parecer distraído, desatento, mas, na verdade, ele está concentrado em coisas que ninguém observa ou dá valor, a não ser ele próprio. Esforça-se para apreender o impalpável, vive em busca do símbolo, que é o sinal luminoso duma complexa realidade espiritual, com a qual ele se comunica. É assim que o poeta pode se tornar porta-voz de multidões inteiras: verbalizando o que os outros não conseguem captar.

Sou mulher, meio nuvem, meio Nefele. Cultivo o Vago, o Oculto, o Mistério, a Ilusão, a Solidão que me permitem sondar além das aparências do concreto tangível, num mundo de névoas e idéias.

Raquel Naveira é escritora, poeta, Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo.

 

Fonte do texto: Linguagem Viva – Ano XX – n. 245 – Janeiro de 2010

   3D Smiles (142)

Se você estiver procurando algo na vida que seja justo, lembre-se do sutiã: oprime os grandes, protege os pequenos e levanta os caídos.

@jsoaresreal José Eugênio Soares

quarta-feira, 23 de março de 2011

NU – O CORPO
Rosani Abou Adal


Quando as pétalas se calam
a manhã se ensurdece
o orvalho seca
a brisa se dispersa no alvorecer
a vida omite-se no pranto
a aurora sussurra inerte
o tempo descompassado se rompe
o silêncio grita desesperado
o sorriso murcha nos horizontes
espinhos acariciam o corpo nu
folhas beijam
a língua solitária
silencio-me e durmo
acompanhada à minha solidão.

00-1


Sobre a autora
Rosani Abou Adal nasceu em São Paulo - SP, Formada em Comunicação Social - habilitação em Jornalismo e Publicidade e Propaganda - pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Fez curso de especialização na USP - Artes Plásticas e Música, o enfoque multidisciplinar da sociologia e da arte. Editora do jornal literário mensal Linguagem Viva.

terça-feira, 22 de março de 2011


(...)tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações! (…)

 

(Trecho do livro O primo Basílio, de Eça de Queiroz. São Paulo: Ática, 1994, p. 134)

domingo, 20 de março de 2011

1v6yepgb[1]

Quanto mais inteligente é um homem, mais originalidade ele descobre nos homens. Pessoas ordinárias não enxergam nenhuma diferença entre eles.

(Blaise Pascal)

1v6yepgb[1]

sábado, 19 de março de 2011

A LIÇÃO
Guilherme de Almeida


Pelos remendos do meu manto pobre,
pela moeda de cobre,
pela côdea de pão,

conhecerás o mundo que não cabe
nos livros, e não sabe
sair do coração.

Nos remendos terás um mapa-múndi:
a carta que nos funde,
que do homem faz o irmão;

o cobre há de dizer, mais que a palavra,
que o bem não se azinhavra
se vai de mão em mão;

a côdea mostrará que a crosta dura
da terra é uma fartura
para os que têm e dão.

Pelos remendos do meu manto pobre,
pela moeda de cobre,
pela côdea de pão,

conhecerás o mundo que não cabe
nos livros, e não sabe
sair do coração.

 
Imagem: pintura de Jim Warren
Sobre  Guilherme de Almeida

sexta-feira, 18 de março de 2011

O LADO BOM
JG de Araujo Jorge

 
Quero ser uma ilha,
um pouco de paisagem,
uma janela aberta,
uma montanha ao longe,
um aceno de mar,
quando precisares de sonho,
de um canto de beleza,
de um pouco de silêncio,
ou simplesmente
de sol... e de ar...
Quero ser o lado bom
em que pensas,
(isto que intimamente
a gente deseja
mas nem sempre diz)
- quero ser, naquela hora,
o que sentes falta
para seres feliz...
Que quando pensares
em fugir de todos
ou de ti mesma, enfim,
penses em mim...

____d011ge5_divider[1] 

In A  Sós..., 1958

Imagem: Washington Maguetas

SABOR DE VIDA
Aládia Pereira de Almeida


Eu amo a vida pelo que é a vida,
pela razão mais simples de viver,
sem me importar se árida é a lida,
se há mais dias de dor que de prazer.

Eu amo a vida mesmo na incerteza
do dia em que ela me abandonará;
sem pesar de deixar tanta beleza,
sem pensar, lá no Além, como será.

A vida é boa, é só saber vivê-la,
não desejar brilhar qual uma estrela,
nem também, como um verme se arrastar.

Saber chorar, se a dor nos atormenta,
sorrir, quando a alegria se apresenta,
compreender, esquecer e perdoar. 
 312bygp-2

Imagem: Dimitri Danish (gondola reflections)

Sobre a autora:

Nasceu em Petrópolis - RJ, em 7/11/1936. Fez seu primeiro soneto aos 15 anos. Publicou os livros “Sonhos Azuis”, “Brumas da Tarde”, “Sereno Crepúsculo”, “É Noite, Afinal!”, todos de magníficos sonetos e outros poemas e o livro de crônicas “O Canto da Cambaxirra”. Com Doris Gelli produziu o volume “Serenata Imperial”. Integrante de várias academias e sociedades de letras do país, venceu concursos de poesia com primeiras colocações, tornando-se admirada e festejada como sonetista. Recebeu a honraria de Patrona Imortal da Academia Poética da E. M. Vila Felipe. Faleceu em 9 de dezembro de 2003. (Fonte >> daqui)

AMARELINHA
Alexandre Tambelli

Terra
Amanhã quando acordar
Vou amarelinha pular,
Com uns pulinhos na terra
Lá bem no céu eu vou chegar...

Alegre criança a jogar
Uma pedrinha no chão,
Com a pontinha dos pés
Lá bem no céu eu vou chegar...

E lá no céu uma estrelinha
Eu haverei de encontrar,
Com uns pulinhos na terra
Lá bem no céu eu vou chegar...
E feliz criança serei...
Céu.

quinta-feira, 17 de março de 2011

PRIMAVERA EM FLOR
Anderson Christofoletti

Primavera em flor
Rompendo secos ramos
Feito manhã fugaz
Perfumada de eternidade.

Vertiginoso mergulho
No penhasco dos sentimentos pungentes;
Precisão do desconhecido
Como ponte para todo
E qualquer lugar;
Luz no peito contida
Que precisa desabrochar...

Tudo se faz tão pouco:
Distâncias, diferenças, desafios...
Tudo tão louco
- Necessário desatino -,
Quando voar é preciso,
Quando a realidade do passo
Não se irmana com
A verdade inconcebível.

Qualquer caminho tem destino,
Mas, no amor, é preciso perder-se
Para se encontrar.

Gesto solícito
Sobre cristal de infinitas faces;
Aurora que amanhece a vida
Inexplicavelmente simples,
Necessariamente simples
Como simples é amar.

 

1-14

Fonte >> DAQUI
Mais de
Anderson Christofoletti

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Dai-me a alegria
Do poema de cada dia.
E que ao longo do caminho
Às almas eu distribua
Minha porção de poesia.

 4-8

Mario Quintana
In A cor do invisível, 2005

quarta-feira, 16 de março de 2011

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Imagem do Jardim da Eve 

terça-feira, 15 de março de 2011

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TORTURA
Florbela Espanca

Tirar de dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isso que sinto!

 

Mais de Florbela Espanca

trovas_adelmartavares

 

Mais de Adelmar Tavares

deusaeratodeusaeuterpedeusakaliopedeusapolimnia 
POEMA  e  POESIA

Qual a diferença entre os dois?

A POESIA é uma arte; um POEMA é uma técnica, um formato.  Apesar das pessoas muitas vezes não costumarem separá-las, costumarem confundi-las e apesar das duas fazerem parte do mesmo contexto, elas são coisas distintas.  Vamos começar falando da POESIA.

A palavra POESIA vem do latim Poesis e significa o ato de criar; costumamos chamá-la também de Arte Lírica.

A Poesia é a emoção na forma de palavra, é aquilo que se sente, colocado esteticamente no papel.  A Poesia é uma arte que não se preocupa  apenas com o significado, mas também com o ritmo,  com a sonoridade, com a interação entre as palavras, com o aspecto visual e, principalmente, com o efeito emocional que as palavras provocam nas pessoas.  Do ponto de vista da apresentação, a poesia pode vir na forma de poema, de prosa ou pela manifestação plástica de uma imagem, de um movimento harmônico, pela pintura ou na representação visual de uma escultura.

Não somente nessas coisas que falei aí!  Há gente que vá mais longe e diga que há Poesia também no sorriso de uma criança, nos olhos de uma pessoa apaixonada, num gesto de amor fraterno ou numa rosa de um jardim.  A poesia está sempre mais ligada à imaginação, à inspiração e à sensibilidade do que ao pensamento racional. Para o poeta espanhol García Lorca, " Todas as coisas têm seu mistério;  a poesia é o mistério que todas as coisas têm."

POESIA E MÚSICA

A Poesia está intimamente ligada à música! Nos idiomas anglo-saxões, por exemplo, a letra de uma música chama-se Lirics!   Aliás, a poesia surgiu ligada à música, pois no início ela não era recitada, mas era cantada numa união entre letra composta e som e ritmo da música. Com o passar dos tempos, houve uma espécie de separação técnica entre Poesia e Música.  A música passou a ser escrita em pautas e a poesia propriamente dita passou a ser escrita em versos e recitada. Depois, a poesia ganhou os seus próprios fundamentos e regras.  Só para te dar uma idéia do quanto Poesia e Música são próximas, a própria palavra Lirismo, também utilizada para designar a Poesia, vem do latim LIRA, o instrumento musical, que era muito usado para tocar as canções dos poetas da Grécia antiga e também na idade média pelos trovadores.

É uma das 7 Artes Clássicas:

1ª Arte – Música
2ª Arte – Dança
3ª Arte – Pintura
4ª Arte – Escultura
5ª Arte – Teatro
6ª Arte – Literatura ( Prosa e Poesia)
7ª Arte – Cinema

 

INSPIRAÇÃO, RECURSOS METAFÓRICOS, IMAGENS, SONS E CORES

Como se escreve Poesia para transmitir emoções e sensações, o poeta não se utiliza apenas do significado das palavras, mas se utiliza principalmente da maneira como as palavras se relacionam umas com as outras, da sonoridade e da musicalidade (daí a importância da rima), da cadência e do ritmo (daí a importância da métrica)  e do poder sugestivo da palavra (daí a importância da inspiração).  É fundamental que a poesia expressa nas palavras também tenha: brilho, emoção e beleza.

E O POEMA?

POEMA é simplesmente qualquer texto escrito em verso!   POEMA é a casca, o invólucro, é a roupa que a poesia resolveu usar naquela ocasião!  E existem vários tipos de POEMA:  o Soneto, a Ode, o Haikai, o Rondó, o Rondel, a Balada, as Décimas, a Quadrinha, etc.  São as formas, os veículos estéticos que usamos para expressar a poesia que criamos. Para ficar mais claro, vou te dar alguns exemplos que não podem ser tomados ao “pé da letra”, mas que servem aqui para o nosso melhor entendimento:

- Poesia é a essência, o poema é a forma.

- Poesia é a alma, o poema é o corpo.

- Poesia é o perfume que exala, o poema é o frasco que o guarda.

IMPORTANTE

A Poesia geralmente escolhe a gente e não ao contrário.  A gente tem que estar preparado para recebê-la, quando ela vier, se não ela passa e vai embora.  Podemos até “buscar” a Poesia e, pela prática que tenhamos de criá-la, forçar a nossa criatividade, a nossa imaginação e então produzi-la.  Mas isso será sempre um processo anti-natural.  Assim como existem músicos com um talento inexplicável, pintores geniais, atletas fenomenais e matemáticos super-dotados, também existem os Poetas, pessoas dotadas de um dom inato (mais ou menos forte) que pode ser aperfeiçoado.  Portanto, vale sim, motivar, incentivar, ensinar os preceitos da Poesia, mas lembre-se que esse também é um talento com o qual a gente nasce, ou não se nasce, com ele.

Elamer Neto

Leia o texto original >> AQUI

Saiba mais sobre as deusas da Mitologia Grega >> AQUI

segunda-feira, 14 de março de 2011
dianacionaldapoesia
14/03 - aniversário de Castro Alves

Castro Alves ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.


 


Voz da autora

BILHETE EM PAPEL ROSA 
Adélia Prado


A meu amado secreto, Castro Alves

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.
Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
“o cinamomo floresce
em frente ao teu postigo.
Cada flor murcha que desce,
morro de sonhar contigo”.
Ó bardo, eu estou tão fraca
e teu cabelo é tão negro,
eu vivo tão perturbada, pensando com tanta força
meu pensamento de amor,
que já nem sinto mais fome,
o sono fugiu de mim. Me dão mingaus,
caldos quentes, me dão prudentes conselhos,
e eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,
a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vidas ligadas.
Antônio lindo, meu bem,
ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.
6-1[1]
Mais de Adélia Prado


DIA NACIONAL DA POESIA

O Dia Nacional da Poesia, não por acaso, coincide com a comemoração do nascimento do grande poeta Castro Alves. Sua arte era movida pelo amor e pela luta por liberdade e justiça.

 castroalves6  castroalves2  castroalves

TE EMBALAREI COM UMA CANÇÃO SENTIDA


Senta-te aqui ao meu lado, amiga, e eu te contarei uma história. Faz tempo que não te conto uma história na beira deste cais. A noite está cheia de estrelas, são homens valentes que morreram. Senta-te aqui, dá-me a tua mão, vou te contar a história de um homem valente. Vês aquela estrela lá longe, mais além do navio fundeado, mais além do forte velho, da sombra das ilhas? Deve ser ele iluminando o céu da Bahia. Não sei se será bem uma história o que te vou contar. Talvez seja uma louvação, talvez seja um abc. Este de quem te falarei não tinha armas. Ia de peito aberto e a todos vencia. Vencia os homens, os fortes do mundo que esmagavam negros escravos, vencia as mulheres, as mais belas da terra, as que esmagavam corações. Te direi das suas lutas, das primeiras e das últimas, e saberás então o motivo por que ninguém é indiferente perante ele, odiado dos tiranos, amado do povo.

Talvez invente menos, talvez não invente mesmo nada que nada é preciso acrescentar para que a sua vida seja um prodígio de beleza. É possível, no entanto, que te diga que ele fez coisas que apenas escreveu, que te conte de conversas que ninguém assistiu e talvez nem houvessem existido. Mas que, em verdade, deviam ter existido, estavam no que ele produziu, nos versos que deixou. Se o fizer, amiga, será para que tenhas uma mais nítida ideia de como ele era forte como o tufão quando se jogava contra as injustiças e de como era brando como a brisa quando a sua voz se dirigia a tímidos ouvidos de mulher. Só inventarei o que estiver de acordo com ele, o que couber na sua figura cuja sombra se projeta cada vez maior sobre todos os que escrevem e sentem no Brasil. Até sobre este teu amigo, contador de histórias de negros e marítimos.

Tinha a força do vento noroeste, o seu ímpeto, a sua violência. Tinha a sua beleza também. E deixou o ar mais puro, a sua lembrança imortal. Tinha a precocidade desses moleques de rua a quem acaricias a cabeça e dos quais te contei a história. Começou muito moço e muito moço terminou. Foi o mais belo espetáculo de juventude e de gênio que os céus da América presenciaram. No tempo que andou nestas e noutras ruas, disse tantas e tão belas coisas, amiga, que sua voz ficou soando para sempre e é cada vez mais alta e cada vez mais a voz de centenas, de milhares, de milhões de pessoas. É a tua voz, negra, é a voz do cais inteiro e da cidade lá atrás também. Falou por todos nós como nenhum de nós falaria. É ainda hoje o maior e o mais moço de nós todos.

Este, cuja história vou te contar, foi amado e amou muitas mulheres. Vieram brancas, judias e mestiças, tímidas e afoitas, para os seus braços e para o seu leito. Para uma, no entanto, guardou ele suas melhores palavras, as mais doces, as mais ternas, as mais belas. Essa noiva tem um nome lindo, negra: liberdade. Vê no céu, ele brilha, é a mais poderosa das estrelas. Mas o encontrarás também nas ruas de qualquer cidade, no quarto de qualquer casa. Seja onde for que haja jovens corações pulsando pela humanidade, em qualquer desses corações encontrarás Castro Alves.
Nasceu sob o signo do amor mais livre, dos instintos lutando contra os preconceitos, do homem procurando a sua felicidade contra tudo e contra todos.

 

Texto extraído do livro ABC de Castro Alves, de Jorge Amado
Saiba mais de Castro Alves >> AQUI

domingo, 13 de março de 2011

COM LICENÇA POÉTICA
ADÉLIA PRADO

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

barrinha_4

Voz de Ana Cristina
Do CD Poemas Musicados (2003)

Mais de Adélia Prado >> AQUI

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sábado, 12 de março de 2011

Os primeiros perfumes ascendem da terra
Como emanações de calor de um corpo jovem.
Na treva os lírios tremem, as rosas se desfolham...
O silêncio sopra sono pelo vento
Tudo se dilata um momento e se enlanguesce
E dorme.
Eu vou me desprendendo de mansinho...

A noite dorme.

rosa_desfolhada

SONORIDADE
Vinícius de Moraes


Meus ouvidos pousam na noite dormente como aves calmas
Há iluminações no céu se desfazendo...
O grilo é um coração pulsando no sono do espaço
E as folhas farfalham um murmúrio de coisas passadas
Devagarinho…
Em árvores longínquas pássaros sonâmbulos pipilam
E águas desconhecidas escorrem sussurros brancos na treva.
Na escuta meus olhos se fecham, meus lábios se oprimem
Tudo em mim é o instante de percepção de todas as vibrações.
Pela reta invisível os galos são vigilantes que gritam sossego
Mais forte, mais fraco, mais brando, mais longe, sumindo
Voltando, mais longe, mais brando, mais fraco, mais forte.
Batidos distantes de passos caminham no escuro sem almas
Amantes que voltam...

Pouco a pouco todos os ruídos se vão penetrando como dedos
E a noite ora.
Eu ouço a estranha ladainha
E ponho os olhos no alto, sonolento.
Um vento leve começa a descer como um sopro de bênção
Ora pro nobis...

Os primeiros perfumes ascendem da terra
Como emanações de calor de um corpo jovem.
Na treva os lírios tremem, as rosas se desfolham...
O silêncio sopra sono pelo vento
Tudo se dilata um momento e se enlanguesce
E dorme.
Eu vou me desprendendo de mansinho...

A noite dorme.

barrinha_3

www.viniciusdemoraes.com.br

sexta-feira, 11 de março de 2011

folhas_de_outono

"Nossas vidas são como a respiração, como as folhas que crescem e caem. Quando realmente entendermos sobre as folhas que caem, seremos capazes de varrer os caminhos todos os dias e nos alegrar com nossas vidas neste mundo mutável"

(Ajahn Chah)
barrinha_1
Imagem da Internet by Google

mulher_entardecer

PARA ALÉM DO CÉU
Abgar Renault


Teu dúbio ardor de lâmina de espada
caminha em nós e dói gratuitamente
nesta pobreza de almas escarpadas,
e seus golpes sepulta em nossa mente,

e planta em cada mão uma semente
de abismos, cores, números e nada,
e abre em fitas de sóis altas estradas
em que baixam do céu circunferente

as tuas perspectivas de destino;
solta cisnes e pombos de tristeza,
e seca o vinho de mordidas uvas,

e esconde os teus escassos violinos
de crepúsculo e tácitas certezas
numa dilacerada voz de chuva.

Saiba mais de Abgar Renault >> AQUI
Imagem da Internet by Google

O Anjo Mais Velho
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli

"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minh'alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar

Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto... depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar

 

Fonte do Vídeo >> AQUI

quinta-feira, 10 de março de 2011


Música e Voz de Gibran Helayel >> DAQUI





CANÇÃO DO VIOLEIRO
Poesia de Castro Alves
Música de Gibran Helayel
Interpretação: Brasil Kumbê



Passa, ó vento das campinas,
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração 'stá deserto,
'Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Ela foi-se ao pôr da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta bem triste,
Mais triste é meu coração.
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
E eu disse: a senhora volta
Com as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.
Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?
Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.


Mais de Castro Alves >> AQUI
Mais de Gibran Helayel >> AQUI
terça-feira, 8 de março de 2011

Enquanto houver mulheres alegres ou tristes falando, florando, fluindo e influindo de amor, a humanidade pode ter alguma esperança.

Artur da Távola


“… sem perder a ternura, jamais”

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