domingo, 22 de novembro de 2009

THIAGO DE MELLO NA VOZ DA POESIA

thiagodemelloavp 
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ouça na voz do autor


OS ESTATUTOS DO HOMEM
(Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:

O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI

Fica estabelecida, durante os milênios da vida,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridão,
e a esperança será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar amor a quem se ama
sabendo que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo, um rio,
como a semente do trigo,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

©Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964

9 comentários:

Isabel Ruiz, disse...

E eu me atrevo a dizer que exite apenas uma obrigação: o homem conhecer e interiorizar - não apenas ler, sem pensar - mas vivenciar esse estatuto para ser mais feliz.
Grande texto.
Abs
Isabel

ProfessorNelsonMS disse...

Com certeza uma das mais belas poesias que já li. Nela interagem, nas doses certas, razão e sentimento. As metáforas foram inteligentemente, e sensivelmente, empregadas.

Parabenizo, mais uma vez, o seu excelete trabalho. Esta é minha opinião com as doses certas de razão e de sentimento.

Um abraço.

Nelson

Ebrael Shaddai disse...

Putz!!

Sereníssima, esse é um dos hinos escritos (não precisa nem cantar) mais abrangentes que já ouvi falar!!

E acrescento que poderia ...

"Ficar estabelecido,
Por decreto velado
Que os sonhos se despiriam
De sua névoa costumeira,
De cetim branco-lunar,
E povoariam as esquinas de nossas manhãs
E leriam os jornais,
Com manchetes falando deles mesmos."


Bjs Serena mais do que Serena!!

S. Levy Lima disse...

fez-me chorar.
há 9 anos, quando fiz esta casa, a minha mãe tinha muitos posters na parede de uma sala da casa onde mora...e quando vim para esta, eu pedi-lhe um deles.
um que desde menina me encantava, não eram imagens, eram palavras.
e eu tinha decorado aquilo.
era de 1964, autor, Thiago de Mello
o poster eram os estatutos do homem.

hoje, esse mesmo poster, mais velho que eu, ornamenta a parede ao lado da porta de entrada para lembrar a quem sai e quem entra que "está decretado que agora vale a verdade, que agora vale a vida.."

gostei muito mais do que posso expressar, de ouvir na voz do autor as palavras do poster que tem estado ao meu lado todos os dias da minha vida.

obrigada!

Serenissima disse...

"existe apenas uma obrigação: o homem conhecer e interiorizar - não apenas ler, sem pensar - mas vivenciar esse estatuto para ser mais feliz."

É isso mesmo, Isabel!

Obgda pela visita e pelo comentário!

Abraço carinhoso,
Serenissima

Serenissima disse...

Nelson,
Você é uma das pessoas que mais admiro no Dihitt, e receber um elogio seu é um estímulo para que eu procure cada vez mais fazer no site A Voz da Poesia um trabalho sério e com conteúdo.

Obrigada, sempre!

Abraço carinhoso,
Serenissima

Serenissima disse...

Putz!!
Ebrael!!!
Maravilha!!

"E acrescento que poderia ...

"Ficar estabelecido,
Por decreto velado
Que os sonhos se despiriam
De sua névoa costumeira,
De cetim branco-lunar,
E povoariam as esquinas de nossas manhãs
E leriam os jornais,
Com manchetes falando deles mesmos."

Preciso dizer mais alguma coisa?

Ah, sim... Um beijo sereno no seu coração ;)

Serenissima disse...

S. Levy,
emocionada eu!
Esse coment não pode ficar aqui escondido.
Me permite?

Beijo carinhoso,
Serenissima

Luísa disse...

Lindíssimo o poema. Emocionante ouvir a voz do autor.
Thiago de Mello e os "Estatutos do Homem", texto de análise nos meus tempos de secundário, foi um dos poucos que, nesse tempo, li, reli, virei e reinventei com prazer.

Parabéns e obrigada por me proporcionares excelentes memórias.

Abraços
Luísa

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