domingo, 17 de fevereiro de 2013

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SOBRE AS AREIAS
Eugénio de Andrade


É outra vez a música,
é outra vez
a música que me chama,
outra vez esse esplendor
quase animal
que me procura
e comigo se faz alma
ou primeira manhã sobre as areias.

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© EUGÉNIO DE ANDRADE
In Rente ao Dizer, 1992
Fontë: www.avozdapoesia.com.br/eugeniodeandrade

Imagem: Steve Hanks

ANTONIETTA VARALLO7

ITAOCA
Vinicius de Moraes


Serenamente pousada
Sobre a montanha elevada
Como um ninho de poesia,
A casa branca e pequena
É como a mansão serena
Da luz, da paz, da alegria!

Ó viajante fatigado
Se no teu passo cansado
Aqui vieres pousar,
Tu voltarás satisfeito
Com risos claros no peito
E calmas santas no olhar!

 

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© VINÍCIUS DE MORAES
In Poesia completa e prosa, 1998
Poesias Coligidas
Fonte: www.avozdapoesia.com.br/viniciusdemores

Imagem: Antonietta Varallo

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

LEVO COMIGO AS ÁRVORES
Albano Martins

Levo comigo as árvores,
os lagos,
o vento — as suas cestas
de merenda e volúpia.
À beira
dos relâmpagos planto
uma araucária, uma raiz
de espadas flutuantes ou adagas
floridas — o crepúsculo,
talvez, cinzenta
espuma volátil
de beijos e de lágrimas.

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© ALBANO MARTINS
In Assim São as Algas, 1999

Imagem: Émile Friant

sábado, 9 de fevereiro de 2013

O VENTO SOPRA LÁ FORA
Fernando Pessoa

O vento sopra lá fora.
Faz-me mais sozinho, e agora
Porque não choro, ele chora.

É um som abstrato e fundo.
Vem do fim vago do mundo.
Seu sentido é ser profundo.

Diz-me que nada há em tudo.
Que a virtude não é escudo
E que o melhor é ser mudo.

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© FERNANDO PESSOA
In Poesias Inéditas (1930-1935), 1955
Fonte:
A Voz da Poesia - Fernando Pessoa

Imagem: Gleb Goloubetski

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Carmen Jiménez


POEMA DO BECO

Manuel Bandeira

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
— O que eu vejo é o beco.

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© MANUEL BANDEIRA
In Estrela da Manhã, 1936

Imagem: Carmen Jiménez

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A FLOR DO SONHO
Florbela Espanca


A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa de minh′alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...

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© FLORBELA ESPANCA
In Livro de Mágoas, 1919
Imagem: Anna Homchik

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

 

“Se não houver frutos
Valeu a beleza das flores
Se não houver flores
Valeu a sombra das folhas
Se não houver folhas
Valeu a intenção da semente"

© Maurício Francisco Ceolin
In Saudade da Tribo, 2000
In Mar de Palavras: Poesias reunidas - Sinpro ABC

Henfil cita no seu livro “Diretas Já!” (Ed. Record, 1984), à pag 63:

Um dia em Jundiaí um puro, ao ouvir meu OPTEI pela organização do povo, me deu os seguintes versos, que passo adiante

Parar ser lido dia 22 de novembro de 1982

Se não houver frutos
Valeu a beleza das flores
Se não houver flores
Valeu a sombra das folhas
Se não houver folhas
Valeu a intenção da semente.

PALAVRAS DO AUTOR:

"Em 1982 eu estava levando o fora da minha mulher, minha namorada recente na época. Então escrevi uma carta de despedida para ela, a qual continha estes versos, parte de um poema maior. Ela mostrou para alguém, que mostrou para outros... Nesta época o Henfil fazia a propaganda do PT que ia disputar sua primeira eleição. Um dia ele foi a Jundiaí e deram os versos a ele. Segundo ele me disse depois, pensou que se tratava de uma referência ao PT, naquela época ainda uma semente. Assim ele publicou os versos dentro de uma de suas “cartas a mamãe, na página da revista Isto é que ele assinava na época”. Lá ele diz que recebeu os versos de um "puro em Jundiaí”, mas esta parte ninguém leu e por isso se atribui a autoria a ele.
Esta é a história.

Mauricio Francisco Ceolin
Chico Ceola (como é conhecido).

 

Fontes:

Comunidade “Afinal, quem é o autor:” >> http://goo.gl/4p2KE

Rosängela Aliberti >> http://goo.gl/3hOfQ

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Padre Fábio de Mello

Somos muitos, mesmo sendo dois!
Eu queria ser poeta, conhecer o ofício de recolher palavras. Realizar a proeza de desvendar silêncios e descobrir o que o outro fala mesmo quando ele não diz.
Eu queria ser amigo dos versos, possuir asas que à inspiração pertencem. E alcançar a palavra que possa ser a tradução do amor que sinto por você.
Mas de poeta eu só possuo os óculos. Óculos são instrumentos que ampliam a visão. O amor também. E já que não sou poeta o amor é o que me resta.
Desde quando a vida me permitiu conhecer você, tenho experimentado a beleza do significado da amizade.
Quando nossos caminhos se encontraram foi a primeira vista. Depois daquele encontro meu mundo ficou mais bonito.
Sua presença quando os dias eram difíceis. Quando pensei que felicidade era coisa do outro mundo, sua palavra me convenceu que eu deveria continuar.
Suas alegrias, despertando minhas alegrias; suas risadas me fazendo rir também.
Nossas madrugadas de conversas. Vida dividida nas pequenas coisas.
Costura do tempo nos aproximando sempre mais.
Mas quando surgiram nossas diferenças, quando descobrimos nossos maiores defeitos.
Discussões desaforadas. A promessa de que eu iria embora definitivamente de sua vida e de que nunca mais voltaria a pronunciar seu nome.
Mas depois a saudade, a ausência mensurada, o arrependimento, o pedido de perdão e o aprendizado de que quanto mais a gente ama, muito mais a gente precisa perdoar.
E o perdão é a continuidade do amor. Obrigado por ter me ajudado a entender isso.
Estar ao seu lado é sempre motivo de festa. Quando estamos juntos a vida ganha significado diferente. Retiramos o dia comum do calendário e o transformamos em feriado. Extraímos felicidades das coisas mais simples e multiplicamos a graça de cada instante.
Eu não sei dizer quem eu sou sem me recordar de você.
Se da minha vida eu sou o sujeito, você é o adjetivo.
Você me empresta qualidade, você me devolve quando sou roubado. Você me encontra quando estou perdido.
Pode ser que um dia a gente venha se perder nas distâncias deste mundo. Pode ser que um dia a gente se separe. Nem sempre a vida respeita o que a gente quer.
Mas uma coisa é certa: Se pela força da distância você se ausentar, pelo poder que há na saudade há de voltar.
Mesmo que o tempo passe, você fique velhinho e viva aquela fase: põe meu amigo no sol, tira meu amigo do sol.
Mesmo que você perca toda sua utilidade. Dentro de mim você continuará tendo significado.
E haverá sempre um lugar reservado dentro da minha casa para você chegar, quando quiser.
Eu não gostaria que a morte nos alcançasse sem antes poder lhe dizer, que nas miudezas dos meus dias que passam, você é um grande acontecimento que permanece.
Amar é um recurso humano que nos faz eternos.
Retira da mira do tempo e aconchega a pessoa amada na certeza: você não vai passar!
Hoje, neste dia que a vida nos permitiu um encontro nestas páginas, neste instante em que seus olhos se ocupam das palavras que meu coração resolveu improvisar.
Eu gostaria de lhe agradecer pelas inúmeras vezes que você me enxergou melhor do que sou.
Pela sua capacidade de me olhar devagar, já que nesta vida muita gente já me olhou depressa demais.
Eu que nem sempre soube acertar. Aprendi com você que arrependimento é bem melhor do que culpa.
Obrigado por você não ter desistido de mim.
Obrigado pelo seu dom de multiplicar o que sou e o que posso.
Eu, que na solidão dos meus dias sou tentado a pensar pequeno…
Quando o encontro, sou sempre surpreendido com seu poder de me fazer ver o mundo com as mesmas lentes dos poetas.
Obrigado, hoje e sempre!
O que nos torna amigos é a capacidade de sermos muitos, mesmo quando somos dois!

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In Amigo: Somos muitos, mesmo sendo dois
Autor: Padre Fábio de Melo
Editora: Gente, 2007

Imagem: Christian Asuh

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