segunda-feira, 14 de março de 2011
14/03 - aniversário de Castro Alves

Castro Alves ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.


 


Voz da autora

BILHETE EM PAPEL ROSA 
Adélia Prado


A meu amado secreto, Castro Alves

Quantas loucuras fiz por teu amor, Antônio.
Vê estas olheiras dramáticas,
este poema roubado:
“o cinamomo floresce
em frente ao teu postigo.
Cada flor murcha que desce,
morro de sonhar contigo”.
Ó bardo, eu estou tão fraca
e teu cabelo é tão negro,
eu vivo tão perturbada, pensando com tanta força
meu pensamento de amor,
que já nem sinto mais fome,
o sono fugiu de mim. Me dão mingaus,
caldos quentes, me dão prudentes conselhos,
e eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido,
a tua boca de brasa, Antônio, as nossas vidas ligadas.
Antônio lindo, meu bem,
ó meu amor adorado,
Antônio, Antônio.
Para sempre tua.
6-1[1]
Mais de Adélia Prado


DIA NACIONAL DA POESIA

O Dia Nacional da Poesia, não por acaso, coincide com a comemoração do nascimento do grande poeta Castro Alves. Sua arte era movida pelo amor e pela luta por liberdade e justiça.

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TE EMBALAREI COM UMA CANÇÃO SENTIDA


Senta-te aqui ao meu lado, amiga, e eu te contarei uma história. Faz tempo que não te conto uma história na beira deste cais. A noite está cheia de estrelas, são homens valentes que morreram. Senta-te aqui, dá-me a tua mão, vou te contar a história de um homem valente. Vês aquela estrela lá longe, mais além do navio fundeado, mais além do forte velho, da sombra das ilhas? Deve ser ele iluminando o céu da Bahia. Não sei se será bem uma história o que te vou contar. Talvez seja uma louvação, talvez seja um abc. Este de quem te falarei não tinha armas. Ia de peito aberto e a todos vencia. Vencia os homens, os fortes do mundo que esmagavam negros escravos, vencia as mulheres, as mais belas da terra, as que esmagavam corações. Te direi das suas lutas, das primeiras e das últimas, e saberás então o motivo por que ninguém é indiferente perante ele, odiado dos tiranos, amado do povo.

Talvez invente menos, talvez não invente mesmo nada que nada é preciso acrescentar para que a sua vida seja um prodígio de beleza. É possível, no entanto, que te diga que ele fez coisas que apenas escreveu, que te conte de conversas que ninguém assistiu e talvez nem houvessem existido. Mas que, em verdade, deviam ter existido, estavam no que ele produziu, nos versos que deixou. Se o fizer, amiga, será para que tenhas uma mais nítida ideia de como ele era forte como o tufão quando se jogava contra as injustiças e de como era brando como a brisa quando a sua voz se dirigia a tímidos ouvidos de mulher. Só inventarei o que estiver de acordo com ele, o que couber na sua figura cuja sombra se projeta cada vez maior sobre todos os que escrevem e sentem no Brasil. Até sobre este teu amigo, contador de histórias de negros e marítimos.

Tinha a força do vento noroeste, o seu ímpeto, a sua violência. Tinha a sua beleza também. E deixou o ar mais puro, a sua lembrança imortal. Tinha a precocidade desses moleques de rua a quem acaricias a cabeça e dos quais te contei a história. Começou muito moço e muito moço terminou. Foi o mais belo espetáculo de juventude e de gênio que os céus da América presenciaram. No tempo que andou nestas e noutras ruas, disse tantas e tão belas coisas, amiga, que sua voz ficou soando para sempre e é cada vez mais alta e cada vez mais a voz de centenas, de milhares, de milhões de pessoas. É a tua voz, negra, é a voz do cais inteiro e da cidade lá atrás também. Falou por todos nós como nenhum de nós falaria. É ainda hoje o maior e o mais moço de nós todos.

Este, cuja história vou te contar, foi amado e amou muitas mulheres. Vieram brancas, judias e mestiças, tímidas e afoitas, para os seus braços e para o seu leito. Para uma, no entanto, guardou ele suas melhores palavras, as mais doces, as mais ternas, as mais belas. Essa noiva tem um nome lindo, negra: liberdade. Vê no céu, ele brilha, é a mais poderosa das estrelas. Mas o encontrarás também nas ruas de qualquer cidade, no quarto de qualquer casa. Seja onde for que haja jovens corações pulsando pela humanidade, em qualquer desses corações encontrarás Castro Alves.
Nasceu sob o signo do amor mais livre, dos instintos lutando contra os preconceitos, do homem procurando a sua felicidade contra tudo e contra todos.

 

Texto extraído do livro ABC de Castro Alves, de Jorge Amado
Saiba mais de Castro Alves >> AQUI

domingo, 13 de março de 2011

COM LICENÇA POÉTICA
ADÉLIA PRADO

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

barrinha_4

Voz de Ana Cristina
Do CD Poemas Musicados (2003)

Mais de Adélia Prado >> AQUI

card_poesia_shakespeare

sábado, 12 de março de 2011

Os primeiros perfumes ascendem da terra
Como emanações de calor de um corpo jovem.
Na treva os lírios tremem, as rosas se desfolham...
O silêncio sopra sono pelo vento
Tudo se dilata um momento e se enlanguesce
E dorme.
Eu vou me desprendendo de mansinho...

A noite dorme.

rosa_desfolhada

SONORIDADE
Vinícius de Moraes


Meus ouvidos pousam na noite dormente como aves calmas
Há iluminações no céu se desfazendo...
O grilo é um coração pulsando no sono do espaço
E as folhas farfalham um murmúrio de coisas passadas
Devagarinho…
Em árvores longínquas pássaros sonâmbulos pipilam
E águas desconhecidas escorrem sussurros brancos na treva.
Na escuta meus olhos se fecham, meus lábios se oprimem
Tudo em mim é o instante de percepção de todas as vibrações.
Pela reta invisível os galos são vigilantes que gritam sossego
Mais forte, mais fraco, mais brando, mais longe, sumindo
Voltando, mais longe, mais brando, mais fraco, mais forte.
Batidos distantes de passos caminham no escuro sem almas
Amantes que voltam...

Pouco a pouco todos os ruídos se vão penetrando como dedos
E a noite ora.
Eu ouço a estranha ladainha
E ponho os olhos no alto, sonolento.
Um vento leve começa a descer como um sopro de bênção
Ora pro nobis...

Os primeiros perfumes ascendem da terra
Como emanações de calor de um corpo jovem.
Na treva os lírios tremem, as rosas se desfolham...
O silêncio sopra sono pelo vento
Tudo se dilata um momento e se enlanguesce
E dorme.
Eu vou me desprendendo de mansinho...

A noite dorme.

barrinha_3

www.viniciusdemoraes.com.br

sexta-feira, 11 de março de 2011

folhas_de_outono

"Nossas vidas são como a respiração, como as folhas que crescem e caem. Quando realmente entendermos sobre as folhas que caem, seremos capazes de varrer os caminhos todos os dias e nos alegrar com nossas vidas neste mundo mutável"

(Ajahn Chah)
barrinha_1
Imagem da Internet by Google

mulher_entardecer

PARA ALÉM DO CÉU
Abgar Renault


Teu dúbio ardor de lâmina de espada
caminha em nós e dói gratuitamente
nesta pobreza de almas escarpadas,
e seus golpes sepulta em nossa mente,

e planta em cada mão uma semente
de abismos, cores, números e nada,
e abre em fitas de sóis altas estradas
em que baixam do céu circunferente

as tuas perspectivas de destino;
solta cisnes e pombos de tristeza,
e seca o vinho de mordidas uvas,

e esconde os teus escassos violinos
de crepúsculo e tácitas certezas
numa dilacerada voz de chuva.

Saiba mais de Abgar Renault >> AQUI
Imagem da Internet by Google
De um lado a poesia, o verbo, a saudade…



O Anjo Mais Velho
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli

"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
Enchendo a minh'alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar
Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto... depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você
Só enquanto eu respirar

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